07/09/09

OMBRO PERTO DO QUEIXO


Quando abri os olhos vi as copas das árvores. Eu não conseguia me mexer direito. Aquela sensação voltou e eu ficava sem entender nada quando acontecia, só depois. O gosto amargo na boca prevalecia sempre, e eu conseguia fazer um único movimento lateral com o braço direito, como se estivesse limpando a boca com o lado externo do punho, mas com o braço mais esticado e duro, e o ombro perto do queixo. O Vanderley deu um pulo que quase deu com o pé direito na minha cara torta, mas eu ali, nem me mexia. Minha boca beijava o vento e meus olhos fixos no nada. “Dona Mocinha! O Rogério tá dando ataque de novo”, eram as únicas palavras que eu conseguia ouvir ao longe, por uma voz conhecida, mas não conseguia identificar quem que estava ali gritando. E quem era Dona Mocinha? Sei que sempre que eu fazia aquele movimento com o braço, ouvia alguém chamando por ela: “Dona Mocinha! O Rogério...”.

Aquela cena apesar de estranha era familiar. Quando a vista ficava turva eu tinha certeza que alguma coisa errada estava acontecendo, só não sabia dizer o que era. Apenas depois. E sempre acontecia quando eu sentia a falta do sabor adocicado do brometo de potássio.

Eu era epiléptico e tinhas uns ataques, uns surtos repentinos, acontecia quando menos esperava. A família toda sabia e quando aquele movimento involuntário estava pra acontecer, quando o punho e o cotovelo começavam a formigar, eu tinha vontade de sair correndo sem rumo. Até tentava avisar a quem estivesse ao meu lado, mas era em vão. Não dava tempo. Durante aqueles intermináveis dois minutos, minha boca ficava feito losna. Mas eu tinha sempre a certeza de que tomava apenas chá de losna para as minhas diarréias e dores de estômago. Nunca abusei do chá. Minha mãe, sempre ia buscar umas folhas no fundo do quintal... Lembrei! Dona Mocinha era minha mãe! Então sempre que acontecia era a ela que chamavam. Lembro que a gente morava numa casa ampla. A sala e os quartos ficavam na parte da frente, enquanto os banheiros e a cozinha ficavam nos fundos. Da janela que tinha na pia da cozinha, minha mãe ficava espiando a gente brincar no quintal. Éramos sete irmãos, eu a Olívia, o Marcelo, o Tonho, a Jocelma, a Dalva que era a mais velha e o Danilo, que todo mundo chamava de Toró. Ele era o irmão mais novo e era diferente da gente. Tinha o cabelo mais claro, mais liso e os olhos levemente puxados, lembrando um pouco os traços de uma criança oriental. Um dia o Toró ficou caçoando do Flavinho, irmão do Cido, porque ele tinha botado uma lombriga pra fora no meio da rua enquanto empinava pipa. De repente o Toró viu aquele troço pendurado entre as pernas do colega e ficou rindo da situação. Tomou uma pedrada na cabeça que lhe renderam seis pontos.

Nesses dois minutos sem fim, consegui lembrar de todos os amigos que brincavam comigo e meus irmãos no nosso quintal. A gente ficava pulando de galho em galho, de árvore em árvore, e minha mãe lá na janelinha espiando. Lembro que a gente gostava de comer "uva japonesa". Tinha dois pés da árvore lá em casa e eram os mais altos. Deve ser de um deles que eu cai.

26/08/09

PAULO E LEILA

Desceu as escadas e trancou a porta. Depois saiu andando pela calçada como de costume.

Entretanto naquele dia, por ali, não havia nenhum sinal de vida. Por um instante parou e ouviu apenas o silêncio. Não podia ouvir sequer, o som de alguém respirando. Só ouvia o nada.

Nenhum carro em movimento, nenhum menino no farol, nenhuma loja, farmácia, bar aberto. “Que merda aconteceu?”. Saiu correndo de volta pra casa e cobriu a cabeça com o edredom antes mesmo de deitar-se. Nem percebeu que a Leila não estava por ali, e voltou a dormir. Inexplicável como ele conseguia dormir assim com tanta facilidade diante de um fato tão estranho, diante dos acontecimentos, se assim se pode dizer, pois nada estava acontecendo, literalmente. Agarrou no sono mesmo assim. Profundo.

Seus olhos são abertos instantaneamente quando o relógio desperta. Ele houve uma música ao longe até dar aquele sopapo, e jogar o emissor ao chão. Teve um espasmo: “Como o rádio ta funcionando? Tem alguém lá pra botar a música!”.

- Levanta preguiçoso! Esqueceu que tem prova hoje?

- Leila! Leila! Você ta aí?

- Que foi? Teve pesadelo?

- Foi horrível. Eu tava sozinho na cidade, não via ninguém, nenhuma alma penada! Fiquei aterrorizado Leila!

- É stress. Cê tá estressado!

- É. Pode ser.

- Então levanta vai, que eu também tô atrasada.

- Cê vai sair?

- Vou na minha mãe.

- De novo? Que tanto cê vai lá?

- Ela me ligou!

- E daí?

- Daí que ela é minha mãe, ué!

- Tá bom sua mal educada. Vou pra minha aula que eu ganho mais. E trata de se cuidar por que se eu tô estressado, você deve saber o motivo né?

- Vai à merda Paulo!

- Que?

- É isso mesmo! Você acorda depois de um pesadelo idiota e fica aí todo nervosinho, e minha mãe é que é culpada?

- Leila não fala besteira.

- E tem mais, depois que você entrou nessa faculdade ficou assim todo esquisito. Que foi? É alguma mulher que te tira a atenção na sala de aula?

- Não viaja.

- Não viaja? Se orienta rapaz!

- Cala a boca Leila!

- Você é um idiota.

- Leila...

- Que foi? Vai querer me bater? Só falta isso agora!

- Tchau, vou sair.

Ele desceu as escadas e quando chegou à porta, o tiro acertou suas costas. Sua mão continuava na maçaneta.

Queria se livrar daquilo tudo e ir pra rua, sair pra encontrar alguém, e fazer sua prova. Pena que a cidade estava vazia e o silêncio, mortal. Nem o som da respiração se ouvia. Nem o som da sua própria respiração.

24/07/09

As Histórias do Amadeu

Na época em que parou de trabalhar, o Amadeu não ligava muito pra isso de tecnologia. Male-male usava o controle-remoto do videocassete – sensação da época. A Flavinha sua filha, era a responsável por ler, entender e repassar aos pais, todas as informações dos manuais, além de por as coisas pra funcionar. Mas depois que foi embora morar com o namorado, deixou pai e mãe órfãos nessa questão. A última coisa que fez foi ensinar o pai a usar o telefone celular. Usar não, ensinou ele a fazer e atender as ligações. Pra por no vibracall era o fim do mundo.
Freqüentemente, durante as partidas de dominó, o Amadeu conversava com os amigos sobre vários assuntos e a discussão sobre a dificuldade com os eletrônicos sempre vinha à tona.
- Vocês viram o celular novo que eu ganhei de aniversário de casamento? Tem até MP3.
- Que coisa é essa Carlos? MP3? – pergunta o Amadeu curioso.
- É um sistema pra tocar músicas. Você grava no computador as músicas que você quer ouvir, e depois transfere pro celular. Pra ouvir é só por esses fonezinhos aqui ó.
- Ah, lembrei! A Flavinha já tinha me mostrado um radinho que ela tem com esse tal MP3. Mas assim no celular eu nunca tinha visto não.
- É coisa de tecnologia né Amadeu! Você nunca ouviu falar? Computador você conhece, né?
- Claro que sim né Carlos! Mas o que tinha lá em casa a Flavinha levou embora quando foi morar com aquele mané. E eu nunca mexi. Nem sei como funciona! Mas vem cá, e esse telefone aí? Faz ligação também ou só toca música?
- Se por crédito faz normal, mas ainda não carreguei não.

Amadeu ficou encantado com a novidade. Um celular que toca música no fonezinho, quem diria. Ele achou o máximo! “Mas e se tocar o telefone, como vou saber? E pra atender? Tem que desligar a música?” Melhor deixar pra lá. Outra hora ele pergunta pro Carlos , aliás, não tinha nem computador em casa. E outra, também não podia ficar mostrando pros amigos em plena mesa de dominó, que não sabe o que é MP3. Basta os “micos” que a Marilda fazia ele pagar.
No outro dia, na caminhada, eis que o Carlos aparece com o tal celular e seus fonezinhos.
- E aí Carlos, vai caminhar assim com esse troço ai pendurado?
- Claro! Enquanto caminho, ouço um Paulinho da Viola de primeira! Nem vou lembrar das safenas que carrego aqui no peito.
O Amadeu então resolve que daquele dia em diante ia se inteirar completamente sobre essas coisas modernas. Não podia, mesmo com essa idade, deixar de saber delas. Ainda mais depois daquela manhã em que não conseguiu conversar com o com o amigo enquanto caminhava, sentiu-se muito só, ao contrário do amigo que tinha arranjado um novo companheiro – o tal celular com MP3.
A primeira providencia que tomou após o banho, foi ligar - do celular - pra Flavinha.
- Oi filha, tudo bem?
- Diga pai. Que surpresa é essa? Aconteceu alguma coisa?
- Não. É que resolvi comprar um computador e queria uma opinião sua.
- Mas pai, o senhor não sabe ligar nem a TV direito! O que te deu?
- Ah, Flávia, não dá pra ficar desatualizado né? E outra, cansei de ficar jogando dominó o dia inteiro.
- Olha só o pai! É assim que se fala!
- Você me ajuda então filha?
- Pode deixar. Semana que vem vou arrumar um tempinho pra ir aí, e conversamos tá?
- Tá bom filha.
- Tchau, beijo. Dá um beijo na mãe.
- Dou sim. Tchau!
E desligou o celular. Ficou olhando pro aparelho assim com jeito de quem queria desmontá-lo pra saber o que tinha lá dentro. Queria desvendar os segredos da tecnologia. Bendito MP3!
Pronto. O primeiro passo tava dado. Agora vinha a parte mais difícil: convencer a Marilda de incluir mais uma despesa nas contas do mês. O computador tinha que ser financiado né? Afinal, benefício de aposentado é aquela coisa!

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