09/05/2010

A SAGA DOS MINUTOS FINAIS


No 1.º minuto do momento final o Relógio da Praça atravessou solenemente a cidade em direção ao bairro mais longínquo, onde apoderou-se à força do ponto de ônibus, com a intenção de terminar para sempre com o reino do sofrimento e da angústia malcriada.

No 2.º minuto do momento final três vândalos tomaram um monomotor de assalto e levaram ao ponto mais alto da cidade, um letreiro com frases obscenas. Vendo aquilo, a torre de transmissão de telefonia móvel calou-se ao ser interrogada pela veracidade dos fatos.

No 3.º minuto do momento final uma comitiva de psiquiatras obesos praticaram uma sessão de análise simultânea com um aparelho de barbear de baterias arriadas.

No 4.º minuto do momento final a polícia interrogava uma família de surdos-mudos que descobriram o segredo do simbolismo de Leonardo da Vinci.

No 5.º minuto do momento final um bando de esquimós nômades com suas vestes decadentes desfilou silenciosamente diante da sacada da Socieade Protetora dos animais.

No 6.º minuto do momento final a mulher do professor de matemática aumentou a prole e deu a luz novamente na fila da casa lotérica.

No 7.º minuto do momento final todas as revistas com fotos do astro pop foram transformadas em unhas pintadas de vermelho roídas.

No 8.º minuto do momento final a única roupa transparente foi usada na rua para cobrir a abundante nudez.

No 9.º minuto do momento final fecharam-se as portas da realidade.

No 10.º minuto do momento final uma revoada de pombos sofrendo de diarréia podia ser vista ao longe.

12/04/2010

O CIRCO

No último espetáculo do ano quem pinta o rosto pro trabalho fez a melhor piada. Quis que o trapezista resolvesse uma equação aritmética de ponta cabeça enquanto fazia suas acrobacias lá nas barras suspensas. O resultado deveria ser o número de vezes que o contorcionista desapareceria do picadeiro. Obra do mágico que tinha feito uma aposta com a mulher barbada - quem perdesse iria entrar na jaula dos leões. O auto-retrato havia sido pintado pelo olhar triste do público respeitável; aflição e ansiedade. A probabilidade de acerto da solução do exercício matemático entretanto era mínina, porém maior que a credulidade ante ao efeito da sopa de lentilha da véspera e a camiseta branca. Ninguém percebeu, mas o lenço que o mágico usou era branco. Sorte ou não, alguém já viu mágico usar lenço branco? Só pombo e coelho. Lenço, sempre vermelho. E velho. 

21/03/2010

PASTA DE LONA

A caminhada não era tortuosa nem longa, pelo contrário, era acolhedora mesmo diante daquele amontoado fétido do entulho que havia se deitado sobre tudo.
Aquele homem era há muitos anos o amigo preferido do ex-pastor. Ambos eram muito ligados. Ele, apesar de procurar incansavelmente, não conseguiu encontrar nada inteiro, e pelo estrago, não existia nenhuma possibilidade de resgatar ninguém com vida daquele acidente, mas ele que havia saído de casa apenas com as roupas do corpo e um par de meias amarrotadas que colheu do sol escaldante que fez naquele dia após a chuva, mantinha a esperança e continuava caminhando entre aquele monte de coisas inúteis em busca de algum sinal do amigo.
A cada metro que desbravava ficava a impressão de estar caminhando em círculos. Da calamidade restou uma enorme montanha de coisas inúteis cercadas de lama e que pareciam haver sido cuspidas do solo feito vulcão. Aquele monte de coisa fedida e sem préstimo atrapalhava o acesso a qualquer coisa por ali. Não dava pra saber, por exemplo, o que era rua e o que era esquina.
Ele estava enjoado, com a boca amarga e o estômago embrulhado. O cheiro de carne estragada empesteava-lhe as narinas e vez por outra ele chutava um ou outro rato. Queria que fosse diferente, mas não pode presenciar nada além da catástrofe. Não havia uma parede de pé, e as telhas estavam todas quebradas. Seus calcanhares dentro das galochas estavam prestes a sucumbir quando viu que a pasta de lona que o ex-pastor sempre carregava consigo, aparecia discreta sob o que parecia ter sido um dia uma mesa de bilhar. Não teve tempo de se aproximar para tentar reconhecer o anel da mão que segurava a pasta de lona porque a retro escavadeira que criou todo aquele absurdo crônico desligou os motores. A chuva voltava a cair.

06/03/2010

CLARABÓIA

Sinceramente esperei pela chuva hoje, pela garoa ao menos
Mas ela teimou em não vir
Teimosia tem limites.
Seria o fim se fosse dormir sem vê-las, gotas
Na esperança, abrem-se as vidraças e ao olho nú, tingi-se o céu de um fundo breu
Carregado de olhos vidrados nos nobres eunucos possuidores da mais intensa carga de tesão
Não poderei deitar-me, sem apetecer reagir ao tempo bom.
O recurso é a lúdica tempestade abaixo da claraboia, e o edredon que me acolhe.

09/02/2010

CORTAR E GRUDAR

Alguém disse que ela não viria mais. Havia desistido. Mesmo porque, depois das duas primeiras aulas, acho qualquer um na sua mais plena consciência perceberia que aquele curso...

Eu mesmo tinha comigo que ela sempre foi meio relapsa sim. Várias vezes ao nos encontrarmos eu percebi uma certa arrogância vindo dela. Sabe quando a pessoa chega no mesmo lugar que você está, te olha fundo nos olhos e quando você ameaça balançar a cabeça pra cumprimentar, ela vira a cara? Então.

Uma outra disse que “copiar e colar” é a mesma coisa que "cortar e grudar”. “É tudo a mesma coisa. Você aperta o dedo aqui desse lado do ratinho e leva a setinha pra onde você quer”.

Na hora do intervalo, ser tolerante em tomar café ao lado de alguns é uma vitória. Não dá pra bater papo sabe? Qualquer assunto fica chato e a noite demora a passar. Muitas tartarugas fugindo, e um leão morto a cada aula.

Hoje cheguei atrasado. Abri a porta e todo mundo torceu o pescoço pra ver quem era. Juro que não cheguei tão atrasado assim, tanto que depois que eu entrei, vi uns dois ou três saindo, por que quarta tem futebol depois da novela.

Logo em seguida, ela levantou, veio falar alguma coisa no ouvido de outra garota que estava sentada do meu lado. Passou por mim com a mesma arrogância de sempre. Nunca haviam se falado, mas foram tantos sorrisos gastos naqueles dois minutos de prosa, que parecia que uma era a mais recente amiga de infância da outra. Uma aula de Educação Moral e Cívica, ou OSPB, seria mais interessante.

Agora preciso parar. A mulher que fala sozinha chegou.