
..............................................................................................................................................................................................................far niente!!!
23/02/2009
27/12/2008
IMAGENS

Engraçado como as pessoas estão ansiosas e ao mesmo tempo pacientes. Umas ficam por aqui, horas paradas na fila, outras, horas andando pra cima e pra baixo, perambulando mesmo. Enquanto dou minhas goladas, um casal, que já passou por aqui umas duas vezes em menos de cinco minutos, continua sua ronda, e acho que eles ainda vão passar por aqui outras vezes. Eles talvez estejam a fim de tirar uma foto com o Papai Noel, mas estão sem paciência para enfrentar a fila, ou simplesmente estão perambulando mesmo.
A moça que pagava um café aqui do lado, espera pra ser servida, enquanto a crise do mundial e a eleição do presidente negro são os ícones da imagem projetada nas telas espalhadas pelas prateleiras da loja em frente. Será talvez que os enfeites da árvore de natal são de origem desconhecida? O casal dá mais uma volta por aqui. Pura apatia, enquanto a mulher toma o último gole do seu café, e sai.
Eu fico por aqui a apreciar um pouco mais o movimento(?), sem saber ao certo se vou entrar naquela fila e dar um abraço no Papai Noel, ou se saio por aí à vaguear pelos corredores sem me importar com o amanhã.
A indecisão não me seduz e resolvo então sair e andar (ou será perambular?) um pouco. Saí sem compromisso daquele café e caminhei em direção a lugar nenhum, apenas andei. Continuava a minha observação, agora de outro nível, mas com a mesma sensação de perceber as pessoas e seus comportamentos. Não consigo me lembrar de muita coisa, apenas lembro que em dado momento, dei de cara com a mulher que estava tomando café no mesmo local que eu. Ela estava saindo de uma loja. Vi-me, então, interessado apenas em observar àquela mulher, cada passo que dava.
Ela me pareceu a única diferente naquele local, não estava andando por aí sem destino, parecia ter um objetivo definido. Seus passos eram firmes e ela seguia determinada. Eu acompanhava com olhares, só de longe. E ela continuava na sua caminhada. Em alguns momentos diminuía a velocidade, e parecia que ia parar, mas continuava o percurso. Nem ela e nem eu olhávamos para os lados, ela dedicada em sua trilha, eu dedicado em saber aonde ela iria.
Só percebi onde estava quando ela parou em uma fila, e ali ficou. Eu, pra disfarçar e não me deixar perceber, parei pra tomar outro café, e fiquei ao longe. Alguns minutos passaram, um homem acompanhado de uma linda menina se aproximou da mulher e lhe deu um beijo no rosto. Ela abaixou, beijou a linda menina, e continuaram ali naquela fila. A menina não escondia a ansiedade de registrar em foto a felicidade de ver o Papai Noel de perto. O movimento lá fora continua, e meu segundo café já está frio. Aquele casal que dava voltas por ali, agora estava também naquela fila. Talvez tenham deixado de lado a impaciência, ou talvez não queiram mais perambular por ai.
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27/11/2008
11/11/2008
QUESTÃO DE PRINCÍPIO
Omar era um cara sério, trabalhador, super gente boa. Tinha umas dívidas aí, como todo bom brasileiro. Procurava manter suas contas em dia, e não suportava a idéia de ficar devendo. Certo dia ia caminhando pela rua e encontrou uma carteira. Antes de abaixar pra pegá-la, olhou pros lados pra ver se alguém estava olhando. Só depois de ter certeza que não estava sendo observado, trouxe o objeto pra si.
Só tirou a tal carteira do bolso quando chegou em casa, e mesmo assim, com a consciência pesada.
Ficou só observando o formato, a cor, o volume, o valor sentimental. Em momento algum, sequer pensou no dinheiro que poderia haver naquela carteira.
- Trocou de carteira meu amor?
- Não! Achei na rua quando vinha pra casa.
- E quanto tem aí?
- Ainda não vi.
- Abre aí Omar! Vê logo o que tem dentro. Quem sabe tem uma grana preta ai dentro? A prestação do carro tá atrasada, esqueceu?
Omar então lembrou da ocasião em que era criança e havia perdido sua caixa de canetinhas Silvapen, no pátio do colégio. Nunca mais encontrara. Teve também aquela vez em que sua bola de capotão caiu na casa de Dona Diva, e ela não devolveu.
Voltou à carteira e num impulso, abriu-a. Um documento de identidade em estado deplorável. Não soube distinguir o que era a foto 3x4 e o que era a impressão digital. Apenas o nome do cidadão.
Em outro compartimento, havia um cartão bancário, um cartão do dentista, que no verso trazia os horários de consulta – tava mal de boca o cara! –, e um bilhete: “Igor, o Andrade pediu pra você ligar urgente. Falou que precisa da grana hoje! Bj. Ana”. Pelo visto ainda devia pra alguém.
“Não tem porque ficar com isso. Vou devolver”. – Pensou ele.
No outro dia, ao caminhar pelo mesmo trajeto de sempre, em direção ao trabalho, Omar segue calmo seu percurso. Passos curtos, em pausado andamento, vai se aproximando do local onde encontrou a carteira.
Chegando no local, reduziu mais ainda os lentos passos e, olhando para os lados, em tom desconfiado, abaixou-se para amarrar o sapato e deixou cair a carteira do bolso. Levantou-se, e seguiu.
Alguns metros depois, sente uma mão no ombro:
- O senhor deixou cair ali atrás.
- Obrigado rapaz, mas não é minha.
- É sua sim, eu vi quando caiu. Foi quando o senhor abaixou pra amarrar o sapato.
Omar, sem graça, batendo nos bolsos, disfarçou:
- É minha mesmo. Obrigado.
- De nada. É que aprendi que não devemos nos apoderar de nada de outra pessoa. Questão de princípio, se é que me entende.
- Entendo sim rapaz. Entendo sim. – disse Omar guardando a carteira e seguindo ao trabalho novamente com seus calmos passos. Quem sabe um dia encontre o dono.
Foi caminhando com o pensamento na carteira e em sua atitude de tentar devolvê-la, agindo conforme seus princípios. Muito prudente. Mas pecou por aceita-la novamente quando o rapaz o surpreendeu.
De qualquer forma, pensando pelo lado racional, foi até bom ele ficar com a carteira. Amanhã vence outra prestação do carro.
