22/01/2012

As Histórias do Amadeu - Onde tudo começou


Amadeu é um cara simples. Aposentado, acorda diariamente as 06:30 para sua caminhada diária. Vez por outra ele caminha acompanhado do Carlos, que tem duas pontes de safena e não suporta exercícios físico. Caminha por que é obrigado: “Odeio suar!”, diria ele. Depois de caminhar, os dois sempre vão à praça pra jogar um dominózinho amigo. O local é freqüentado por vários senhores aposentados, desempregados e afins, mas isso não incomoda o Amadeu, muito pelo contrário, o faz esquecer das chatices da Marilda, sua esposa.

        Amadeu dia desses tava lá na praça jogando, e a Marilda foi lá falar com ele.

-      Ei! Eu tô indo no mercado, você vem comigo?

-      Vai indo que eu tô terminando aqui. Já eu te encontro lá.

-      Nana, nana! Da última vez que você disse isso, tive que pagar vinte reais de taxi pra voltar! Vou esperar você aqui!

Risos na praça foram óbvios. Mesmo assim, Amadeu continuou jogando e só depois de terminar é que ele seguiu com a Marilda puxando o carrinho de feira.

-      Você viu o preço do achocolatado? Tá pela hora da morte?

-      Marilda, já estamos aqui à quarenta minutos e você não terminou suas compras. Vai levar o mercado todo, ou o quê?

-      Nossa Amadeu, você tá cada dia mais chato. Típico comportamento de gente que não faz nada da vida. Já tô quase terminando, peraí.

Era assim todas as vezes em que o Amadeu não conseguia de safar da Marilda. Na relação, a Marilda era a comandante, e ele sempre tinha suas lamentações. Apesar de aposentado, o Amadeu era novo, tinha só 54 anos. Começou a trabalhar cedo, seu sua atividade profissional era insalubre. Trabalhou a vida inteira num laboratório de produtos químicos, por isso que ele tinha que caminhar. Recomendações médicas. A Marilda ele conheceu na firma. Ela trabalhava no “DP”. Com o tempo, foram se acostumando com a relação. Hoje, acostumados, o Amadeu vai fingindo que gosta da Marilda, e ela finge que acredita.

        Três horas depois de ter ido ao mercado, volta o Amadeu pra praça.

-      Como tá o jogo aí?

-      Olha o cara aí! Consegui trazer tudo, ou teve que dar duas viagens? – disse o Carlos.

-      É a Marilda. Num guento mais aquela mulher. Fica dando voltas e voltas. Passa um monte de vezes no mesmo corredor e não leva nada!

Cinco minutos de papo são suficientes para a Marilda aparecer de novo.

-      Amadeu, preciso ir no açougue. A Valéria me disse que tem uma promoção ótima. Diz que o preço do lagarto tá muito bom. Tô pensando em fazer aquele assado com batatas.

Vocês precisavam ver a cara de espanto de todos, principalmente a do Amadeu. Ele não esperava que a Marilda falasse aquilo na frente de todo mundo, ainda mais, cinco minutos depois de ter chegado do mercado.

-      Então tá!  Vá lá e traga uma peça bem bonita.

-      Nana, nana. Você vai comigo escolher. Aliás meu cartão do banco tá bloqueado e preciso que você vá no caixa eletrônico tirar dinheiro.

-      Pega meu cartão e vai. Você sabe a senha.

-      Você sabe que não gosto disso.

-      Mas eu tô jogando! Quer dizer, eu vou jogar!

-      Joga depois! Você vai jogar o dia todo mesmo. Não sai dessa praça! Vâmo lá vai!

Amadeu sabia que ela queria tirá-lo da jogatina, e estava usando uma desculpa atrás da outra pra conseguir o que queria. “Ela que vá pensando que me domina.” – disse pra si mesmo.

-      Você vai preparar pro almoço ou pra janta?

-      Pra janta. A Flavinha vai lá em casa com o namorado.

-      E quanto você vai gastar?

-      Sei lá, uns trinta reais.

-      Então vai lá na minha carteira e pega cinqüenta logo.

-      Mas você tem que me ajudar a trazer as outras coisas, o refrigerante...

-      Pode deixar que quando eu sair daqui eu levo os refrigerantes.

Ela emudeceu, afinal, não tinha mais desculpas pra tirar o Amadeu dali.

-      Tá bom! Vê se não demora. – e saiu andando.

Mais uma vez o Amadeu conseguiu escapar. Mas não era sempre assim, ele nem sempre ganhava. Era apenas mais uma batalha, e ele tinha certeza que vinha mais por aí.

13/01/2012

Retorno às postagens. Constantemente em busca do ócio...


          No retorno às postagens, vai um dos primeiros contos que escrevi e de que mais gosto. 





         NUNCA MAIS FELIZ


         Regina foi abordada na saída da boate,  às sete da manhã. As olheiras acusavam que a noite foi intensa, e o prazer também. Trabalhar era sua vida, mas o sonho ainda ia se tornar realidade. Adorava viver seu personagem, e o prazer, este era da representação.
         Ele perguntou onde ficava a Caio Prado, e ela disse: - Logo ali. Primeira esquerda, no farol.
         Ela desapareceu subindo no ônibus, sem perceber que ele a fitara até o fim de seus passos curtos, e só então dobrou a esquerda.

         No primeiro drink estava o desejo de revê-la e sugar-lhe até revelar-se. Ela aparece.
-       Acho que já te vi hoje né?
-       É. Eu também. Dormiu bem?
-       Dormi. A tarde toda. E você? Achou a Caio Prado?
-       Achei. Não sou daqui. Moro no interior, e vim procurar uma coisa, mas acabei achando outra.
-       Preciso ir. Meu show é agora.
Regina estava acostumada com os olhares masculinos, mas nunca ninguém botara tanto reparo nela como aquele cara. Algo que nunca tinha vivido. E chamou sua atenção. Seria coisa do interior? Subiu no palco para sua apresentação, e sabia que seria difícil tiara os olhos dele. A cada movimento, cada passo de sua dança sensual, ela insinuava que havia percebido a intenção real do tal cara da roça.

-          Betinho! Manda um cheeseburger, que to virada de fome!
Enquanto matava quem tava lhe matando, Regina percebe que ele não tirava o olho. Sentiu-se numa sessão paparazzi.
Depois do lanche, saiu e foi ao camarim. Quando voltou, ele a esperava no corredor, e agarrou-a sem uma palavra sequer. Um beijo que só os dois souberam a intensidade.
-       Betinho! Um Martini aqui pra moça! – E voltando-se a ela – Você parecia um anjo com aquele vestido azul.
-       Minha saia era marrom! E a blusa era bege! – Disse ela, desanimada. Ele não havia prestado tanta atenção assim.
-       O de hoje de manhã era azul. Com três botões atrás. E naquele saltinho, ficou perfeita. Se bem que, por si só, não há a necessidade de adornos.
O olhar de Regina entregou. Ela adorou o comentário.

         Desde então, toda noite de show da Regina, ele ia até a boate. Já havia se mudado definitivamente para a capital, e íntimo de Betinho, pedia pra entregar bilhetes com poemas e mandava decorar com flores o camarim de Regina. Ela não conseguia esconder a satisfação de ser cortejada como se tivesse passando de mini-saia em frente a um campo de futebol de várzea, ou num canteiro de obras.
Naquela noite, ele abandonou o Martini e foi de uísque caubói:
-       Te quero hoje! Você não sai daqui a não ser que seja comigo! Teu corpo é meu!
Apesar do frio, Regina corou a face e não conseguiu dizer não. Aquela noite aconteceu seu último show. Estava de partida pra uma outra turnê.

Engraçado como o amor de esposa e diferente de amor de amante. Ele agora só amava Regina como esposa...
Agora era cuidar da casa,  dos filhos... A vida lá fora acabou e o sonho se perdeu. A Caio Prado Ficou longe
De noite, ao esperá-lo em casa, Regina sentada na frente do espelho lembra das noites, dos preparativos para o show, maquiagem. Lembrava dos olhares masculinos, como a tirar-lhe fotografias. Mais pra raio X de tão profundas. Das cantadas mil e dos bilhetes que Betinho entregava – Vinícius,  a Vinícius de Moraes, quanta saudade. Saudades das flores no camarim. Do Martini que a conduziu ao amor verdadeiro. Que pena.
A estrela passou a brilhar num único e diferente céu, e seu resplendor foi abafado.
Romance com Martini, flores no camarim e Caio Prado nunca mais.
Por enquanto, encontrando a melhor forma pra voltar ao ócio, agora com outros fundamentos...

21/07/2010

AS HISTÓRIAS DO AMADEU - CUTÍCULA

Na manicure, a Marilda se lamenta porque não pode acompanhar o marido que foi fazer um exame de sangue. Logo ela que se achava tão companheira, tão próxima do parceiro, e tão disponível, desconfiou que o Amadeu não queria que ela fosse com ele.
- Neuza, o Amadeu anda meio estranho ultimamente, meio afastado, sabe. Tô sentindo ele meio distante. Não quer mais minha companhia pra nada. Cê acredita que outro dia ele foi sozinho no cinema?
- Nossa. Faz tanto tempo que não faço isso.
- O que? Ir no cinema?
- Não. Ir no cinema sozinha. Eu adoro!
- Que é isso Neuza? Você também? Pensei que era só aquele relapso do meu marido.
- Que nada. Ir no cinema sozinha é ótimo. Eu sempre fui. Mesmo depois de casada. O Paulo nem liga. Também, não gosta de cinema.
- Meu Deus! Como uma pessoa pode ir no cinema sozinha? Sem companhia, sem ninguém, sem passear de mãos dadas.
- Ah, Marilda. Eu vou no cinema é pra assistir o filme e não pra outras coisas. Namorar a gente namora em casa.
- E o romantismo mulher? Onde fica?
- Ah, minha filha! Não preciso ir no cinema pra ser romântica, não. Eu e o Paulo, a gente se completa em todos os sentidos, inclusive nos momentos em que estamos sozinhos, estamos um com o outro entende?
- Nossa Neuza, que palavras bonitas! Tô até com inveja.
- A gente tem uma sintonia muito forte sabe? A gente respeita o lado individual de cada um. Um dia, durante uma discussão quando a gente ainda namorava, ele virou pra mim e disse: “Neuza, eu tenho minha vida, você tem a sua e a gente tem a nossa. Se eu tiver uma vida feliz e você também, a nossa com certeza será”. Depois desse dia eu tive certeza que amava o Paulo.
A Marilda ficou emocionada com as palavras da manicure, e deixou escorrer uma lágrima. Ao tentar não enxugá-la, puxou a mão direita justo no momento que a Neuza apertava-lhe o alicate junto à cutícula do dedo médio. Ao ver o sangue no canto da unha, começou a passar mal e lembrou que o marido não estava ali ao seu lado. Entendeu que sua história era totalmente diferente da história da manicure. O seu casamento realmente estava acabando.

10/07/2010

BEM VINDO PUNHAL

Aquele amor não existia na vida real, era fantasia. Os corpos não podiam se encontrar por menos de três horas. Sentiam uma terrível falta um do outro quando se iam. Os toques, os beijos e os cheiros iam tomando proporções maiores que seus desejos. Quando estavam juntos, no apartamento ou em qualquer lugar que seja, eles não pensavam. As mãos que tocavam seu corpo eram as mesmas que moldavam a argila mole e úmida que se transformara num cálice pela manhã. Estava confirmada a possessão. Não havia nada de leve no clima. O ambiente era carregado, porém envolvente. Eles não pensavam. Entendiam que o amor era algo simples, que apenas fazia parte do dia, como o nascer do sol que não tem surpresas nem motivos. Apenas está lá. Então, num desses capítulos especiais da vida, em que tudo acontece, eles sentiram necessidade da distância. Da solidão entre si. E submeteram-se a um período de separação. Foram infindáveis duas horas sem se falar, mas ao primeiro toque do celular, as lamentações deram lugar ao coito. Como resistir? A pele suada exalava paixão e o sangue escorrendo dos ouvidos diagnosticava o derrame. Foi penosa a separação. Ele não resistiu. Ela, na lembrança dos momentos que viveram, mostrara-se feliz e tivera tempo de sorrir antes de apertar o gatilho.

18/05/2010

NÓ DE GRAVATA


Saímos cedo, por volta das 18h00. O horário de verão ajudava no percurso, porque dirigir à noite não era legal, nunca gostei. Ela vestia uma saia verde com listras brancas e uma blusa branca, gola careca. O salto discreto era baixo, e quem olhava de longe tinha a impressão de estar vendo uma mulher de estatura médio-alta. Colar e brincos de prata (eu acho) ornamentavam a silhueta em contraste à maquiagem retocada na saída do trabalho. Na mala, todos os acessórios e badulaques que as mulheres levam a qualquer lugar, qualquer viagem, além de outras duas malas e uma bolsa mais pesada que chumbo, e que não deu pra ver direito o que tinha dentro porque eu não tive paciência de ajudar a preparar na noite anterior.

Na minha bagagem, duas cuecas, duas bermudas, uma sunga, xampu, fio dental, pasta e escova de dente devidamente enrolados numa das três camisetas de lycra, daquelas que não amassam e conseqüentemente não precisam passar pela incandescente sensação de ser prensada por um ferro de passar. Tudo muito bem acomodado numa bolsa pequena que eu uso pra ir pro futebol. Não preciso de mais nada para passar um final de semana em Ubatuda. Quem olha de fora do carro só imagina que vou numa festa por conta do terno e gravata que estão num cabide pendurado por detrás do meu banco. Mas é isso mesmo, só não consigo entender como o Dorival, morando na praia resolve casar com as formalidades de como se estivesse em São Paulo. “Coisa da minha sogra”, defende ele que conheceu a noiva a não mais que três anos e já está casando.

A intenção é parar em São Luis do Paraitinga para dormir e seguir viagem no sábado pela manhã. Tomamos um café na pousada e tocamos. O casamento é as 12h00. Imagina só o calor insuportável que deve estar naquela igreja. Não consigo me ver defronte ao padre por mais de trinta segundos mantendo a pose e garantindo ao Dorival que estou muito feliz pelo casamento dele e por ele ter me convidado pra ser padrinho. Padrinho de um casal que vive numa cidade do litoral e que resolve casar na igreja, ao meio dia de um sábado de verão. Porque que não casam à beira-mar, roupas leves, brancas e despojadas, descalços ao som de Janis Joplin?

Pensando no casório enquanto olho pro meu terno alugado, vejo que ele é até muito bem alinhado e que as riscas de giz são discretas. A camisa branca tem os punhos e o colarinho bem cuidados e a gravata vinho também era muito bonita, mas não estava com o nó feito. E agora? Vou ter que me virar pra dar um nó nesse troço!

Quero saber quem foi o cara que inventou o nó de gravata. E mais, como ele descobriu que ela só funcionaria com um nó? Ainda mais um nó tão difícil de dar. Com certeza o cara que inventou a gravata não morava na praia, se morasse, teria inventado uma bermuda com a barra desfiada, bolso rasgado e com um cinto sem fivela, apenas uma tira amarrada num nó de marinheiro.

09/05/2010

Em busca do que?

A SAGA DOS MINUTOS FINAIS


No 1.º minuto do momento final o Relógio da Praça atravessou solenemente a cidade em direção ao bairro mais longínquo, onde apoderou-se à força do ponto de ônibus, com a intenção de terminar para sempre com o reino do sofrimento e da angústia malcriada.

No 2.º minuto do momento final três vândalos tomaram um monomotor de assalto e levaram ao ponto mais alto da cidade, um letreiro com frases obscenas. Vendo aquilo, a torre de transmissão de telefonia móvel calou-se ao ser interrogada pela veracidade dos fatos.

No 3.º minuto do momento final uma comitiva de psiquiatras obesos praticaram uma sessão de análise simultânea com um aparelho de barbear de baterias arriadas.

No 4.º minuto do momento final a polícia interrogava uma família de surdos-mudos que descobriram o segredo do simbolismo de Leonardo da Vinci.

No 5.º minuto do momento final um bando de esquimós nômades com suas vestes decadentes desfilou silenciosamente diante da sacada da Socieade Protetora dos animais.

No 6.º minuto do momento final a mulher do professor de matemática aumentou a prole e deu a luz novamente na fila da casa lotérica.

No 7.º minuto do momento final todas as revistas com fotos do astro pop foram transformadas em unhas pintadas de vermelho roídas.

No 8.º minuto do momento final a única roupa transparente foi usada na rua para cobrir a abundante nudez.

No 9.º minuto do momento final fecharam-se as portas da realidade.

No 10.º minuto do momento final uma revoada de pombos sofrendo de diarréia podia ser vista ao longe.

12/04/2010

O CIRCO

No último espetáculo do ano quem pinta o rosto pro trabalho fez a melhor piada. Quis que o trapezista resolvesse uma equação aritmética de ponta cabeça enquanto fazia suas acrobacias lá nas barras suspensas. O resultado deveria ser o número de vezes que o contorcionista desapareceria do picadeiro. Obra do mágico que tinha feito uma aposta com a mulher barbada - quem perdesse iria entrar na jaula dos leões. O auto-retrato havia sido pintado pelo olhar triste do público respeitável; aflição e ansiedade. A probabilidade de acerto da solução do exercício matemático entretanto era mínina, porém maior que a credulidade ante ao efeito da sopa de lentilha da véspera e a camiseta branca. Ninguém percebeu, mas o lenço que o mágico usou era branco. Sorte ou não, alguém já viu mágico usar lenço branco? Só pombo e coelho. Lenço, sempre vermelho. E velho. 

21/03/2010

PASTA DE LONA

A caminhada não era tortuosa nem longa, pelo contrário, era acolhedora mesmo diante daquele amontoado fétido do entulho que havia se deitado sobre tudo.
Aquele homem era há muitos anos o amigo preferido do ex-pastor. Ambos eram muito ligados. Ele, apesar de procurar incansavelmente, não conseguiu encontrar nada inteiro, e pelo estrago, não existia nenhuma possibilidade de resgatar ninguém com vida daquele acidente, mas ele que havia saído de casa apenas com as roupas do corpo e um par de meias amarrotadas que colheu do sol escaldante que fez naquele dia após a chuva, mantinha a esperança e continuava caminhando entre aquele monte de coisas inúteis em busca de algum sinal do amigo.
A cada metro que desbravava ficava a impressão de estar caminhando em círculos. Da calamidade restou uma enorme montanha de coisas inúteis cercadas de lama e que pareciam haver sido cuspidas do solo feito vulcão. Aquele monte de coisa fedida e sem préstimo atrapalhava o acesso a qualquer coisa por ali. Não dava pra saber, por exemplo, o que era rua e o que era esquina.
Ele estava enjoado, com a boca amarga e o estômago embrulhado. O cheiro de carne estragada empesteava-lhe as narinas e vez por outra ele chutava um ou outro rato. Queria que fosse diferente, mas não pode presenciar nada além da catástrofe. Não havia uma parede de pé, e as telhas estavam todas quebradas. Seus calcanhares dentro das galochas estavam prestes a sucumbir quando viu que a pasta de lona que o ex-pastor sempre carregava consigo, aparecia discreta sob o que parecia ter sido um dia uma mesa de bilhar. Não teve tempo de se aproximar para tentar reconhecer o anel da mão que segurava a pasta de lona porque a retro escavadeira que criou todo aquele absurdo crônico desligou os motores. A chuva voltava a cair.

06/03/2010

CLARABÓIA

Sinceramente esperei pela chuva hoje, pela garoa ao menos
Mas ela teimou em não vir
Teimosia tem limites.
Seria o fim se fosse dormir sem vê-las, gotas
Na esperança, abrem-se as vidraças e ao olho nú, tingi-se o céu de um fundo breu
Carregado de olhos vidrados nos nobres eunucos possuidores da mais intensa carga de tesão
Não poderei deitar-me, sem apetecer reagir ao tempo bom.
O recurso é a lúdica tempestade abaixo da claraboia, e o edredon que me acolhe.

09/02/2010

CORTAR E GRUDAR

Alguém disse que ela não viria mais. Havia desistido. Mesmo porque, depois das duas primeiras aulas, acho qualquer um na sua mais plena consciência perceberia que aquele curso...

Eu mesmo tinha comigo que ela sempre foi meio relapsa sim. Várias vezes ao nos encontrarmos eu percebi uma certa arrogância vindo dela. Sabe quando a pessoa chega no mesmo lugar que você está, te olha fundo nos olhos e quando você ameaça balançar a cabeça pra cumprimentar, ela vira a cara? Então.

Uma outra disse que “copiar e colar” é a mesma coisa que "cortar e grudar”. “É tudo a mesma coisa. Você aperta o dedo aqui desse lado do ratinho e leva a setinha pra onde você quer”.

Na hora do intervalo, ser tolerante em tomar café ao lado de alguns é uma vitória. Não dá pra bater papo sabe? Qualquer assunto fica chato e a noite demora a passar. Muitas tartarugas fugindo, e um leão morto a cada aula.

Hoje cheguei atrasado. Abri a porta e todo mundo torceu o pescoço pra ver quem era. Juro que não cheguei tão atrasado assim, tanto que depois que eu entrei, vi uns dois ou três saindo, por que quarta tem futebol depois da novela.

Logo em seguida, ela levantou, veio falar alguma coisa no ouvido de outra garota que estava sentada do meu lado. Passou por mim com a mesma arrogância de sempre. Nunca haviam se falado, mas foram tantos sorrisos gastos naqueles dois minutos de prosa, que parecia que uma era a mais recente amiga de infância da outra. Uma aula de Educação Moral e Cívica, ou OSPB, seria mais interessante.

Agora preciso parar. A mulher que fala sozinha chegou.

25/01/2010

09/01/2010

Cara nova! Tá melhorando o aspecto do blog - pelo menos eu acho que ficou mais leve, mais limpo. Mais a ver com a proposta. Sim, porque a informação seja lá de qual for a mídia, deve dar prazer. E prazer foi o que encontrei lendo uma matéria no site da revista Vida Simples, sobre morar em comunidade. A reportagem é sobre uma vila de casas em São Paulo, onde o segredo é viver em comunhão com os moradores próximos. Veja mais em: Vida Simples.



08/01/2010

CORES, ALEGRIA E SUOR... MUITO SUOR!


Depois de um tempo fora do mundo virtual, retomo o contato com o mundo através da rede, mas sem a noção de que altura me encontro. Cair na rede é algo inevitável, e o trapézio de nossas vidas é altamente (sem trocadilho) instável. Cá estou de volta, ora com a cara pintada - escondendo mina ira -, ora com a cara limpa e preso junto aos leões; e por vezes muitas, com vontade de me entregar ao ócio eterno, cambaleando "far niente" na corda-bamba.

07/09/2009

OMBRO PERTO DO QUEIXO


Quando abri os olhos vi as copas das árvores. Eu não conseguia me mexer direito. Aquela sensação voltou e eu ficava sem entender nada quando acontecia, só depois. O gosto amargo na boca prevalecia sempre, e eu conseguia fazer um único movimento lateral com o braço direito, como se estivesse limpando a boca com o lado externo do punho, mas com o braço mais esticado e duro, e o ombro perto do queixo. O Vanderley deu um pulo que quase deu com o pé direito na minha cara torta, mas eu ali, nem me mexia. Minha boca beijava o vento e meus olhos fixos no nada. “Dona Mocinha! O Rogério tá dando ataque de novo”, eram as únicas palavras que eu conseguia ouvir ao longe, por uma voz conhecida, mas não conseguia identificar quem que estava ali gritando. E quem era Dona Mocinha? Sei que sempre que eu fazia aquele movimento com o braço, ouvia alguém chamando por ela: “Dona Mocinha! O Rogério...”.

Aquela cena apesar de estranha era familiar. Quando a vista ficava turva eu tinha certeza que alguma coisa errada estava acontecendo, só não sabia dizer o que era. Apenas depois. E sempre acontecia quando eu sentia a falta do sabor adocicado do brometo de potássio.

Eu era epiléptico e tinhas uns ataques, uns surtos repentinos, acontecia quando menos esperava. A família toda sabia e quando aquele movimento involuntário estava pra acontecer, quando o punho e o cotovelo começavam a formigar, eu tinha vontade de sair correndo sem rumo. Até tentava avisar a quem estivesse ao meu lado, mas era em vão. Não dava tempo. Durante aqueles intermináveis dois minutos, minha boca ficava feito losna. Mas eu tinha sempre a certeza de que tomava apenas chá de losna para as minhas diarréias e dores de estômago. Nunca abusei do chá. Minha mãe, sempre ia buscar umas folhas no fundo do quintal... Lembrei! Dona Mocinha era minha mãe! Então sempre que acontecia era a ela que chamavam. Lembro que a gente morava numa casa ampla. A sala e os quartos ficavam na parte da frente, enquanto os banheiros e a cozinha ficavam nos fundos. Da janela que tinha na pia da cozinha, minha mãe ficava espiando a gente brincar no quintal. Éramos sete irmãos, eu a Olívia, o Marcelo, o Tonho, a Jocelma, a Dalva que era a mais velha e o Danilo, que todo mundo chamava de Toró. Ele era o irmão mais novo e era diferente da gente. Tinha o cabelo mais claro, mais liso e os olhos levemente puxados, lembrando um pouco os traços de uma criança oriental. Um dia o Toró ficou caçoando do Flavinho, irmão do Cido, porque ele tinha botado uma lombriga pra fora no meio da rua enquanto empinava pipa. De repente o Toró viu aquele troço pendurado entre as pernas do colega e ficou rindo da situação. Tomou uma pedrada na cabeça que lhe renderam seis pontos.

Nesses dois minutos sem fim, consegui lembrar de todos os amigos que brincavam comigo e meus irmãos no nosso quintal. A gente ficava pulando de galho em galho, de árvore em árvore, e minha mãe lá na janelinha espiando. Lembro que a gente gostava de comer "uva japonesa". Tinha dois pés da árvore lá em casa e eram os mais altos. Deve ser de um deles que eu cai.

26/08/2009

PAULO E LEILA

Desceu as escadas e trancou a porta. Depois saiu andando pela calçada como de costume.

Entretanto naquele dia, por ali, não havia nenhum sinal de vida. Por um instante parou e ouviu apenas o silêncio. Não podia ouvir sequer, o som de alguém respirando. Só ouvia o nada.

Nenhum carro em movimento, nenhum menino no farol, nenhuma loja, farmácia, bar aberto. “Que merda aconteceu?”. Saiu correndo de volta pra casa e cobriu a cabeça com o edredom antes mesmo de deitar-se. Nem percebeu que a Leila não estava por ali, e voltou a dormir. Inexplicável como ele conseguia dormir assim com tanta facilidade diante de um fato tão estranho, diante dos acontecimentos, se assim se pode dizer, pois nada estava acontecendo, literalmente. Agarrou no sono mesmo assim. Profundo.

Seus olhos são abertos instantaneamente quando o relógio desperta. Ele houve uma música ao longe até dar aquele sopapo, e jogar o emissor ao chão. Teve um espasmo: “Como o rádio ta funcionando? Tem alguém lá pra botar a música!”.

- Levanta preguiçoso! Esqueceu que tem prova hoje?

- Leila! Leila! Você ta aí?

- Que foi? Teve pesadelo?

- Foi horrível. Eu tava sozinho na cidade, não via ninguém, nenhuma alma penada! Fiquei aterrorizado Leila!

- É stress. Cê tá estressado!

- É. Pode ser.

- Então levanta vai, que eu também tô atrasada.

- Cê vai sair?

- Vou na minha mãe.

- De novo? Que tanto cê vai lá?

- Ela me ligou!

- E daí?

- Daí que ela é minha mãe, ué!

- Tá bom sua mal educada. Vou pra minha aula que eu ganho mais. E trata de se cuidar por que se eu tô estressado, você deve saber o motivo né?

- Vai à merda Paulo!

- Que?

- É isso mesmo! Você acorda depois de um pesadelo idiota e fica aí todo nervosinho, e minha mãe é que é culpada?

- Leila não fala besteira.

- E tem mais, depois que você entrou nessa faculdade ficou assim todo esquisito. Que foi? É alguma mulher que te tira a atenção na sala de aula?

- Não viaja.

- Não viaja? Se orienta rapaz!

- Cala a boca Leila!

- Você é um idiota.

- Leila...

- Que foi? Vai querer me bater? Só falta isso agora!

- Tchau, vou sair.

Ele desceu as escadas e quando chegou à porta, o tiro acertou suas costas. Sua mão continuava na maçaneta.

Queria se livrar daquilo tudo e ir pra rua, sair pra encontrar alguém, e fazer sua prova. Pena que a cidade estava vazia e o silêncio, mortal. Nem o som da respiração se ouvia. Nem o som da sua própria respiração.

24/07/2009

As Histórias do Amadeu

Na época em que parou de trabalhar, o Amadeu não ligava muito pra isso de tecnologia. Male-male usava o controle-remoto do videocassete – sensação da época. A Flavinha sua filha, era a responsável por ler, entender e repassar aos pais, todas as informações dos manuais, além de por as coisas pra funcionar. Mas depois que foi embora morar com o namorado, deixou pai e mãe órfãos nessa questão. A última coisa que fez foi ensinar o pai a usar o telefone celular. Usar não, ensinou ele a fazer e atender as ligações. Pra por no vibracall era o fim do mundo.
Freqüentemente, durante as partidas de dominó, o Amadeu conversava com os amigos sobre vários assuntos e a discussão sobre a dificuldade com os eletrônicos sempre vinha à tona.
- Vocês viram o celular novo que eu ganhei de aniversário de casamento? Tem até MP3.
- Que coisa é essa Carlos? MP3? – pergunta o Amadeu curioso.
- É um sistema pra tocar músicas. Você grava no computador as músicas que você quer ouvir, e depois transfere pro celular. Pra ouvir é só por esses fonezinhos aqui ó.
- Ah, lembrei! A Flavinha já tinha me mostrado um radinho que ela tem com esse tal MP3. Mas assim no celular eu nunca tinha visto não.
- É coisa de tecnologia né Amadeu! Você nunca ouviu falar? Computador você conhece, né?
- Claro que sim né Carlos! Mas o que tinha lá em casa a Flavinha levou embora quando foi morar com aquele mané. E eu nunca mexi. Nem sei como funciona! Mas vem cá, e esse telefone aí? Faz ligação também ou só toca música?
- Se por crédito faz normal, mas ainda não carreguei não.

Amadeu ficou encantado com a novidade. Um celular que toca música no fonezinho, quem diria. Ele achou o máximo! “Mas e se tocar o telefone, como vou saber? E pra atender? Tem que desligar a música?” Melhor deixar pra lá. Outra hora ele pergunta pro Carlos , aliás, não tinha nem computador em casa. E outra, também não podia ficar mostrando pros amigos em plena mesa de dominó, que não sabe o que é MP3. Basta os “micos” que a Marilda fazia ele pagar.
No outro dia, na caminhada, eis que o Carlos aparece com o tal celular e seus fonezinhos.
- E aí Carlos, vai caminhar assim com esse troço ai pendurado?
- Claro! Enquanto caminho, ouço um Paulinho da Viola de primeira! Nem vou lembrar das safenas que carrego aqui no peito.
O Amadeu então resolve que daquele dia em diante ia se inteirar completamente sobre essas coisas modernas. Não podia, mesmo com essa idade, deixar de saber delas. Ainda mais depois daquela manhã em que não conseguiu conversar com o com o amigo enquanto caminhava, sentiu-se muito só, ao contrário do amigo que tinha arranjado um novo companheiro – o tal celular com MP3.
A primeira providencia que tomou após o banho, foi ligar - do celular - pra Flavinha.
- Oi filha, tudo bem?
- Diga pai. Que surpresa é essa? Aconteceu alguma coisa?
- Não. É que resolvi comprar um computador e queria uma opinião sua.
- Mas pai, o senhor não sabe ligar nem a TV direito! O que te deu?
- Ah, Flávia, não dá pra ficar desatualizado né? E outra, cansei de ficar jogando dominó o dia inteiro.
- Olha só o pai! É assim que se fala!
- Você me ajuda então filha?
- Pode deixar. Semana que vem vou arrumar um tempinho pra ir aí, e conversamos tá?
- Tá bom filha.
- Tchau, beijo. Dá um beijo na mãe.
- Dou sim. Tchau!
E desligou o celular. Ficou olhando pro aparelho assim com jeito de quem queria desmontá-lo pra saber o que tinha lá dentro. Queria desvendar os segredos da tecnologia. Bendito MP3!
Pronto. O primeiro passo tava dado. Agora vinha a parte mais difícil: convencer a Marilda de incluir mais uma despesa nas contas do mês. O computador tinha que ser financiado né? Afinal, benefício de aposentado é aquela coisa!

10/07/2009

IMPACIÊNCIA TOLERADA


Uma amiga esses dias me contou a seguinte história:

“Pensei que era porque eu era mulher, mas prestando bem atenção, percebi que não acontece só comigo não, graças à Deus! A coisa é generalizada, e acontece com qualquer um.

Porque quando você está parado no farol, sempre tem um que buzina quando acende a luz verde? Não é incrível a coincidência? Pode prestar atenção. Acendeu o verde uma buzina toca. Isso quando não tocam várias ao mesmo tempo.

Estava eu indo pra casa depois de ir ao mercado, calma e tranqüilamente. Botei lá um CD do Caetano: ‘Fonte de mel nos olhos de gueixa...’, adoro o Caetano, e fui em disparada. Virei a esquina e mais um cinqüenta metros um semáforo fechado. Tudo vermelho. Parei, olhei no retrovisor, arrumei o cabelo e pensei que deveria procurar um dermatologista, pois minha pele estava horrível.

Cantarolava em dueto com o Caetano, mas com os olhos firmados na sinaleira. Engraçado como nessa hora você percebe as coisas. Vê os detalhes ao seu redor. A calça que o garoto estava usando tinha um buraco no joelho, mas só numa perna a outra estava normal, percebia-se que ele havia feito aquilo de propósito, ou rasgou sem querer, mas não era o modelo da calça. Onde já se viu, uma calça rasgada apenas numa perna? As paredes daquele bar estão precisando de uma mão de tinta... À minha esquerda os carros saem de uma via transversal e entram na via onde estou parada, mas a quantidade de carros é tanta que quando o semáforo fica verde, eu ando apenas uns dez metros e paro de novo. Tome mais buzinaço no ouvido. O Caetano se estivesse ao vivo pararia o show e teria pedido silêncio.

Já estava na terceira música do CD, mas ainda sem pressa e muito atenta ao trânsito. Era o segundo farol fechado que eu encontrara no caminho, e agora devia ter uns três ou quatro carros na minha frente. O verde aparece de novo, e o indelicado que estava atrás de mim dispara aquele som terrivelmente ensurdecedor. Poxa, não percebe que não adianta buzinar? Tá tudo parado! Enfim saímos e até com progresso, mas havia um último semáforo até que eu saísse daquela via e seguisse pra casa. Agora o percurso tinha se transformado numa via de duas pistas, e o cara que havia buzinado pra mim no semáforo anterior estava ao meu lado. Olhou pra mim, deu um sorriso e acenou com a cabeça. Eu aumentei o rádio e arrumei o cabelo de novo, e me distraí com os acordes da música que acabara de começar: ‘Debaixo dos caracóis dos seus cabelos...’, a trilha sonora daquele dia estava perfeita.

O farol abriu e quando olhei pro lado novamente, o cara deu um sinal de tchau no mesmo momento em que outro carro buzinou pra ele acordar e seguir. Quando foi sair, deixou o carro morrer, e ficou lá atrás. Simplesmente engatei uma primeira e saí olhando pelo retrovisor e ouvindo dois sons diferentes, um era o som das buzinas que soavam enlouquecidas para o cara que estava lá atrás atrapalhando o trânsito, o outro era mais uma vez o Caetano cantarolando no meu ouvido: ‘Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João...’. Vai entender esse trânsito louco, né?”