..............................................................................................................................................................................................................far niente!!!
13/01/2012
Retorno às postagens. Constantemente em busca do ócio...
21/03/2010
PASTA DE LONA
07/09/2009
OMBRO PERTO DO QUEIXO
Quando abri os olhos vi as copas das árvores. Eu não conseguia me mexer direito. Aquela sensação voltou e eu ficava sem entender nada quando acontecia, só depois. O gosto amargo na boca prevalecia sempre, e eu conseguia fazer um único movimento lateral com o braço direito, como se estivesse limpando a boca com o lado externo do punho, mas com o braço mais esticado e duro, e o ombro perto do queixo. O Vanderley deu um pulo que quase deu com o pé direito na minha cara torta, mas eu ali, nem me mexia. Minha boca beijava o vento e meus olhos fixos no nada. “Dona Mocinha! O Rogério tá dando ataque de novo”, eram as únicas palavras que eu conseguia ouvir ao longe, por uma voz conhecida, mas não conseguia identificar quem que estava ali gritando. E quem era Dona Mocinha? Sei que sempre que eu fazia aquele movimento com o braço, ouvia alguém chamando por ela: “Dona Mocinha! O Rogério...”.
Aquela cena apesar de estranha era familiar. Quando a vista ficava turva eu tinha certeza que alguma coisa errada estava acontecendo, só não sabia dizer o que era. Apenas depois. E sempre acontecia quando eu sentia a falta do sabor adocicado do brometo de potássio.
Eu era epiléptico e tinhas uns ataques, uns surtos repentinos, acontecia quando menos esperava. A família toda sabia e quando aquele movimento involuntário estava pra acontecer, quando o punho e o cotovelo começavam a formigar, eu tinha vontade de sair correndo sem rumo. Até tentava avisar a quem estivesse ao meu lado, mas era em vão. Não dava tempo. Durante aqueles intermináveis dois minutos, minha boca ficava feito losna. Mas eu tinha sempre a certeza de que tomava apenas chá de losna para as minhas diarréias e dores de estômago. Nunca abusei do chá. Minha mãe, sempre ia buscar umas folhas no fundo do quintal... Lembrei! Dona Mocinha era minha mãe! Então sempre que acontecia era a ela que chamavam. Lembro que a gente morava numa casa ampla. A sala e os quartos ficavam na parte da frente, enquanto os banheiros e a cozinha ficavam nos fundos. Da janela que tinha na pia da cozinha, minha mãe ficava espiando a gente brincar no quintal. Éramos sete irmãos, eu a Olívia, o Marcelo, o Tonho, a Jocelma, a Dalva que era a mais velha e o Danilo, que todo mundo chamava de Toró. Ele era o irmão mais novo e era diferente da gente. Tinha o cabelo mais claro, mais liso e os olhos levemente puxados, lembrando um pouco os traços de uma criança oriental. Um dia o Toró ficou caçoando do Flavinho, irmão do Cido, porque ele tinha botado uma lombriga pra fora no meio da rua enquanto empinava pipa. De repente o Toró viu aquele troço pendurado entre as pernas do colega e ficou rindo da situação. Tomou uma pedrada na cabeça que lhe renderam seis pontos.
Nesses dois minutos sem fim, consegui lembrar de todos os amigos que brincavam comigo e meus irmãos no nosso quintal. A gente ficava pulando de galho em galho, de árvore em árvore, e minha mãe lá na janelinha espiando. Lembro que a gente gostava de comer "uva japonesa". Tinha dois pés da árvore lá em casa e eram os mais altos. Deve ser de um deles que eu cai.
26/08/2009
PAULO E LEILA
Desceu as escadas e trancou a porta. Depois saiu andando pela calçada como de costume.
Entretanto naquele dia, por ali, não havia nenhum sinal de vida. Por um instante parou e ouviu apenas o silêncio. Não podia ouvir sequer, o som de alguém respirando. Só ouvia o nada.
Nenhum carro em movimento, nenhum menino no farol, nenhuma loja, farmácia, bar aberto. “Que merda aconteceu?”. Saiu correndo de volta pra casa e cobriu a cabeça com o edredom antes mesmo de deitar-se. Nem percebeu que a Leila não estava por ali, e voltou a dormir. Inexplicável como ele conseguia dormir assim com tanta facilidade diante de um fato tão estranho, diante dos acontecimentos, se assim se pode dizer, pois nada estava acontecendo, literalmente. Agarrou no sono mesmo assim. Profundo.
Seus olhos são abertos instantaneamente quando o relógio desperta. Ele houve uma música ao longe até dar aquele sopapo, e jogar o emissor ao chão. Teve um espasmo: “Como o rádio ta funcionando? Tem alguém lá pra botar a música!”.
- Levanta preguiçoso! Esqueceu que tem prova hoje?
- Leila! Leila! Você ta aí?
- Que foi? Teve pesadelo?
- Foi horrível. Eu tava sozinho na cidade, não via ninguém, nenhuma alma penada! Fiquei aterrorizado Leila!
- É stress. Cê tá estressado!
- É. Pode ser.
- Então levanta vai, que eu também tô atrasada.
- Cê vai sair?
- Vou na minha mãe.
- De novo? Que tanto cê vai lá?
- Ela me ligou!
- E daí?
- Daí que ela é minha mãe, ué!
- Tá bom sua mal educada. Vou pra minha aula que eu ganho mais. E trata de se cuidar por que se eu tô estressado, você deve saber o motivo né?
- Vai à merda Paulo!
- Que?
- É isso mesmo! Você acorda depois de um pesadelo idiota e fica aí todo nervosinho, e minha mãe é que é culpada?
- Leila não fala besteira.
- E tem mais, depois que você entrou nessa faculdade ficou assim todo esquisito. Que foi? É alguma mulher que te tira a atenção na sala de aula?
- Não viaja.
- Não viaja? Se orienta rapaz!
- Cala a boca Leila!
- Você é um idiota.
- Leila...
- Que foi? Vai querer me bater? Só falta isso agora!
- Tchau, vou sair.
Ele desceu as escadas e quando chegou à porta, o tiro acertou suas costas. Sua mão continuava na maçaneta.
Queria se livrar daquilo tudo e ir pra rua, sair pra encontrar alguém, e fazer sua prova. Pena que a cidade estava vazia e o silêncio, mortal. Nem o som da respiração se ouvia. Nem o som da sua própria respiração.
10/07/2009
IMPACIÊNCIA TOLERADA
Uma amiga esses dias me contou a seguinte história:
“Pensei que era porque eu era mulher, mas prestando bem atenção, percebi que não acontece só comigo não, graças à Deus! A coisa é generalizada, e acontece com qualquer um.
Porque quando você está parado no farol, sempre tem um que buzina quando acende a luz verde? Não é incrível a coincidência? Pode prestar atenção. Acendeu o verde uma buzina toca. Isso quando não tocam várias ao mesmo tempo.
Estava eu indo pra casa depois de ir ao mercado, calma e tranqüilamente. Botei lá um CD do Caetano: ‘Fonte de mel nos olhos de gueixa...’, adoro o Caetano, e fui em disparada. Virei a esquina e mais um cinqüenta metros um semáforo fechado. Tudo vermelho. Parei, olhei no retrovisor, arrumei o cabelo e pensei que deveria procurar um dermatologista, pois minha pele estava horrível.
Cantarolava em dueto com o Caetano, mas com os olhos firmados na sinaleira. Engraçado como nessa hora você percebe as coisas. Vê os detalhes ao seu redor. A calça que o garoto estava usando tinha um buraco no joelho, mas só numa perna a outra estava normal, percebia-se que ele havia feito aquilo de propósito, ou rasgou sem querer, mas não era o modelo da calça. Onde já se viu, uma calça rasgada apenas numa perna? As paredes daquele bar estão precisando de uma mão de tinta... À minha esquerda os carros saem de uma via transversal e entram na via onde estou parada, mas a quantidade de carros é tanta que quando o semáforo fica verde, eu ando apenas uns dez metros e paro de novo. Tome mais buzinaço no ouvido. O Caetano se estivesse ao vivo pararia o show e teria pedido silêncio.
Já estava na terceira música do CD, mas ainda sem pressa e muito atenta ao trânsito. Era o segundo farol fechado que eu encontrara no caminho, e agora devia ter uns três ou quatro carros na minha frente. O verde aparece de novo, e o indelicado que estava atrás de mim dispara aquele som terrivelmente ensurdecedor. Poxa, não percebe que não adianta buzinar? Tá tudo parado! Enfim saímos e até com progresso, mas havia um último semáforo até que eu saísse daquela via e seguisse pra casa. Agora o percurso tinha se transformado numa via de duas pistas, e o cara que havia buzinado pra mim no semáforo anterior estava ao meu lado. Olhou pra mim, deu um sorriso e acenou com a cabeça. Eu aumentei o rádio e arrumei o cabelo de novo, e me distraí com os acordes da música que acabara de começar: ‘Debaixo dos caracóis dos seus cabelos...’, a trilha sonora daquele dia estava perfeita.
O farol abriu e quando olhei pro lado novamente, o cara deu um sinal de tchau no mesmo momento em que outro carro buzinou pra ele acordar e seguir. Quando foi sair, deixou o carro morrer, e ficou lá atrás. Simplesmente engatei uma primeira e saí olhando pelo retrovisor e ouvindo dois sons diferentes, um era o som das buzinas que soavam enlouquecidas para o cara que estava lá atrás atrapalhando o trânsito, o outro era mais uma vez o Caetano cantarolando no meu ouvido: ‘Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João...’. Vai entender esse trânsito louco, né?”
27/12/2008
IMAGENS

Engraçado como as pessoas estão ansiosas e ao mesmo tempo pacientes. Umas ficam por aqui, horas paradas na fila, outras, horas andando pra cima e pra baixo, perambulando mesmo. Enquanto dou minhas goladas, um casal, que já passou por aqui umas duas vezes em menos de cinco minutos, continua sua ronda, e acho que eles ainda vão passar por aqui outras vezes. Eles talvez estejam a fim de tirar uma foto com o Papai Noel, mas estão sem paciência para enfrentar a fila, ou simplesmente estão perambulando mesmo.
A moça que pagava um café aqui do lado, espera pra ser servida, enquanto a crise do mundial e a eleição do presidente negro são os ícones da imagem projetada nas telas espalhadas pelas prateleiras da loja em frente. Será talvez que os enfeites da árvore de natal são de origem desconhecida? O casal dá mais uma volta por aqui. Pura apatia, enquanto a mulher toma o último gole do seu café, e sai.
Eu fico por aqui a apreciar um pouco mais o movimento(?), sem saber ao certo se vou entrar naquela fila e dar um abraço no Papai Noel, ou se saio por aí à vaguear pelos corredores sem me importar com o amanhã.
A indecisão não me seduz e resolvo então sair e andar (ou será perambular?) um pouco. Saí sem compromisso daquele café e caminhei em direção a lugar nenhum, apenas andei. Continuava a minha observação, agora de outro nível, mas com a mesma sensação de perceber as pessoas e seus comportamentos. Não consigo me lembrar de muita coisa, apenas lembro que em dado momento, dei de cara com a mulher que estava tomando café no mesmo local que eu. Ela estava saindo de uma loja. Vi-me, então, interessado apenas em observar àquela mulher, cada passo que dava.
Ela me pareceu a única diferente naquele local, não estava andando por aí sem destino, parecia ter um objetivo definido. Seus passos eram firmes e ela seguia determinada. Eu acompanhava com olhares, só de longe. E ela continuava na sua caminhada. Em alguns momentos diminuía a velocidade, e parecia que ia parar, mas continuava o percurso. Nem ela e nem eu olhávamos para os lados, ela dedicada em sua trilha, eu dedicado em saber aonde ela iria.
Só percebi onde estava quando ela parou em uma fila, e ali ficou. Eu, pra disfarçar e não me deixar perceber, parei pra tomar outro café, e fiquei ao longe. Alguns minutos passaram, um homem acompanhado de uma linda menina se aproximou da mulher e lhe deu um beijo no rosto. Ela abaixou, beijou a linda menina, e continuaram ali naquela fila. A menina não escondia a ansiedade de registrar em foto a felicidade de ver o Papai Noel de perto. O movimento lá fora continua, e meu segundo café já está frio. Aquele casal que dava voltas por ali, agora estava também naquela fila. Talvez tenham deixado de lado a impaciência, ou talvez não queiram mais perambular por ai.
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