Mostrando postagens com marcador cronica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cronica. Mostrar todas as postagens

18/05/2010

NÓ DE GRAVATA


Saímos cedo, por volta das 18h00. O horário de verão ajudava no percurso, porque dirigir à noite não era legal, nunca gostei. Ela vestia uma saia verde com listras brancas e uma blusa branca, gola careca. O salto discreto era baixo, e quem olhava de longe tinha a impressão de estar vendo uma mulher de estatura médio-alta. Colar e brincos de prata (eu acho) ornamentavam a silhueta em contraste à maquiagem retocada na saída do trabalho. Na mala, todos os acessórios e badulaques que as mulheres levam a qualquer lugar, qualquer viagem, além de outras duas malas e uma bolsa mais pesada que chumbo, e que não deu pra ver direito o que tinha dentro porque eu não tive paciência de ajudar a preparar na noite anterior.

Na minha bagagem, duas cuecas, duas bermudas, uma sunga, xampu, fio dental, pasta e escova de dente devidamente enrolados numa das três camisetas de lycra, daquelas que não amassam e conseqüentemente não precisam passar pela incandescente sensação de ser prensada por um ferro de passar. Tudo muito bem acomodado numa bolsa pequena que eu uso pra ir pro futebol. Não preciso de mais nada para passar um final de semana em Ubatuda. Quem olha de fora do carro só imagina que vou numa festa por conta do terno e gravata que estão num cabide pendurado por detrás do meu banco. Mas é isso mesmo, só não consigo entender como o Dorival, morando na praia resolve casar com as formalidades de como se estivesse em São Paulo. “Coisa da minha sogra”, defende ele que conheceu a noiva a não mais que três anos e já está casando.

A intenção é parar em São Luis do Paraitinga para dormir e seguir viagem no sábado pela manhã. Tomamos um café na pousada e tocamos. O casamento é as 12h00. Imagina só o calor insuportável que deve estar naquela igreja. Não consigo me ver defronte ao padre por mais de trinta segundos mantendo a pose e garantindo ao Dorival que estou muito feliz pelo casamento dele e por ele ter me convidado pra ser padrinho. Padrinho de um casal que vive numa cidade do litoral e que resolve casar na igreja, ao meio dia de um sábado de verão. Porque que não casam à beira-mar, roupas leves, brancas e despojadas, descalços ao som de Janis Joplin?

Pensando no casório enquanto olho pro meu terno alugado, vejo que ele é até muito bem alinhado e que as riscas de giz são discretas. A camisa branca tem os punhos e o colarinho bem cuidados e a gravata vinho também era muito bonita, mas não estava com o nó feito. E agora? Vou ter que me virar pra dar um nó nesse troço!

Quero saber quem foi o cara que inventou o nó de gravata. E mais, como ele descobriu que ela só funcionaria com um nó? Ainda mais um nó tão difícil de dar. Com certeza o cara que inventou a gravata não morava na praia, se morasse, teria inventado uma bermuda com a barra desfiada, bolso rasgado e com um cinto sem fivela, apenas uma tira amarrada num nó de marinheiro.

09/02/2010

CORTAR E GRUDAR

Alguém disse que ela não viria mais. Havia desistido. Mesmo porque, depois das duas primeiras aulas, acho qualquer um na sua mais plena consciência perceberia que aquele curso...

Eu mesmo tinha comigo que ela sempre foi meio relapsa sim. Várias vezes ao nos encontrarmos eu percebi uma certa arrogância vindo dela. Sabe quando a pessoa chega no mesmo lugar que você está, te olha fundo nos olhos e quando você ameaça balançar a cabeça pra cumprimentar, ela vira a cara? Então.

Uma outra disse que “copiar e colar” é a mesma coisa que "cortar e grudar”. “É tudo a mesma coisa. Você aperta o dedo aqui desse lado do ratinho e leva a setinha pra onde você quer”.

Na hora do intervalo, ser tolerante em tomar café ao lado de alguns é uma vitória. Não dá pra bater papo sabe? Qualquer assunto fica chato e a noite demora a passar. Muitas tartarugas fugindo, e um leão morto a cada aula.

Hoje cheguei atrasado. Abri a porta e todo mundo torceu o pescoço pra ver quem era. Juro que não cheguei tão atrasado assim, tanto que depois que eu entrei, vi uns dois ou três saindo, por que quarta tem futebol depois da novela.

Logo em seguida, ela levantou, veio falar alguma coisa no ouvido de outra garota que estava sentada do meu lado. Passou por mim com a mesma arrogância de sempre. Nunca haviam se falado, mas foram tantos sorrisos gastos naqueles dois minutos de prosa, que parecia que uma era a mais recente amiga de infância da outra. Uma aula de Educação Moral e Cívica, ou OSPB, seria mais interessante.

Agora preciso parar. A mulher que fala sozinha chegou.

11/11/2008

QUESTÃO DE PRINCÍPIO


Omar era um cara sério, trabalhador, super gente boa. Tinha umas dívidas aí, como todo bom brasileiro. Procurava manter suas contas em dia, e não suportava a idéia de ficar devendo. Certo dia ia caminhando pela rua e encontrou uma carteira. Antes de abaixar pra pegá-la, olhou pros lados pra ver se alguém estava olhando. Só depois de ter certeza que não estava sendo observado, trouxe o objeto pra si.

         Só tirou a tal carteira do bolso quando chegou em casa, e mesmo assim, com a consciência pesada.

         Ficou só observando o formato, a cor, o volume, o valor sentimental. Em momento algum, sequer pensou no dinheiro que poderia haver naquela carteira.

         - Trocou de carteira meu amor?

         - Não! Achei na rua quando vinha pra casa.

         - E quanto tem aí?

         - Ainda não vi.

         - Abre aí Omar! Vê logo o que tem dentro. Quem sabe tem uma grana preta ai dentro? A prestação do carro tá atrasada, esqueceu?

         Omar então lembrou da ocasião em que era criança e havia perdido sua caixa de canetinhas Silvapen, no pátio do colégio. Nunca mais encontrara. Teve também aquela vez em que sua bola de capotão caiu na casa de Dona Diva, e ela não devolveu.

         Voltou à carteira e num impulso, abriu-a. Um documento de identidade em estado deplorável. Não soube distinguir o que era a foto 3x4 e o que era a impressão digital. Apenas o nome do cidadão.

         Em outro compartimento, havia um cartão bancário, um cartão do dentista, que no verso trazia os horários de consulta – tava mal de boca o cara! –, e um bilhete: “Igor, o Andrade pediu pra você ligar urgente. Falou que precisa da grana hoje! Bj. Ana”. Pelo visto ainda devia pra alguém.

         “Não tem porque ficar com isso. Vou devolver”. – Pensou ele.

         No outro dia, ao caminhar pelo mesmo trajeto de sempre, em direção ao trabalho, Omar segue calmo seu percurso. Passos curtos, em pausado andamento, vai se aproximando do local onde encontrou a carteira.

         Chegando no local, reduziu mais ainda os lentos passos e, olhando para os lados, em tom desconfiado, abaixou-se para amarrar o sapato e deixou cair a carteira do bolso. Levantou-se, e seguiu.

         Alguns metros depois, sente uma mão no ombro:

         - O senhor deixou cair ali atrás.

         - Obrigado rapaz, mas não é minha.

         - É sua sim, eu vi quando caiu. Foi quando o senhor abaixou pra amarrar o sapato.

         Omar, sem graça, batendo nos bolsos, disfarçou:

         - É minha mesmo. Obrigado.

         - De nada. É que aprendi que não devemos nos apoderar de nada de outra pessoa. Questão de princípio, se é que me entende.

         - Entendo sim rapaz. Entendo sim. – disse Omar guardando a carteira e seguindo ao trabalho novamente com seus calmos passos. Quem sabe um dia encontre o dono.

         Foi caminhando com o pensamento na carteira e em sua atitude de tentar devolvê-la, agindo conforme seus princípios. Muito prudente. Mas pecou por aceita-la novamente quando o rapaz o surpreendeu.

         De qualquer forma, pensando pelo lado racional, foi até bom ele ficar com a carteira. Amanhã vence outra prestação do carro.

 

 

18/09/2008

6 Decigramas

Não queria sair naquela noite o Luciano. Recebeu um convite logo de manhã, mas não estava animado para reuniões sociais. O Tico tinha conseguido o telefone daquela morena e convenceu a moça para ir também. Pensou que iria animar o amigo pra ir num barzinho tomar alguma coisa, papear, e quem sabe algo mais interessante no fim da noite.
- Vâmo lá cara! Todo mundo vai pra lá. Aquela morena da semana passada confirmou também! - Sei não cara. Num tô com vontade não.
- Cê que sabe! Acho que a noite vai ser bacana.
- Sei lá. Quem sabe eu mudo de idéia até o fim do dia.
E foi assim, o Luciano pensou no convite do amigo o dia inteiro, mas não conseguiu se decidir. Nem a presença da morena interessante da outra noite, lhe animara. Entrou na internet, num desses portais de notícia e navegou desinteressado. Chamou-lhe a atenção uma notícia sobre a nova lei que institui o não consumo de álcool antes de dirigir automóveis. “Fiz bem em não ir. Já pensou se tomo uma cervejinha e sou parado pela polícia na volta?”. O corretor resolve ir embora pra casa. Despede-se de todos no escritório e segue se rumo.
No outro dia ao chegar no escritório, como de costume, vai até a copa tomar um cafezinho, e enquanto queima os dedos no copo descartável, tem que atender ao celular. O Tico liga pra contar sobre a noite de ontem. Ele logo vai dizendo que a decisão do colega foi acertada. Foram, o Tico e a turma, inclusive a morena, ao bar onde sempre se reuniam. Umas cervejas e outras depois, resolveram ir embora. Como de costume, não abusam da bebida, pois sabem dos riscos no trânsito, e foram embora cedo, antes da meia-noite. No caminho, a surpresa. Uma blitz da polícia pra checar a quantas anda o nível de álcool dos boêmios. No caso, estavam sendo utilizados aparelhos descartáveis. Funciona assim, o abordado sopra dentro de um envelope de plástico até encher, depois encaixa um tubo com cristais amarelos de cromo, e aí então passa a esvaziá-lo. Se os cristais ficarem verdes até ultrapassar uma marca preta no tubo (o limite são 6 decigramas), o motorista que passar pelo teste, pode ser punido com prisão e multa.
Ora, o fato então passa a ser o tal bafômetro, e não o Luciano não ter ido ao bar com os amigos. “Que fim que deu, então? Você fez o teste?”. O Tico continua e revela que quando é chegada sua vez de soprar no envelope, os policiais percebem a falta de artefato. Não havia sobrado nenhum mais, pois eram todos descartáveis e já tinha sido utilizado todo o lote. O Luciano deu risada da situação e falou ao amigo que até tinha decidido ir na última hora, e se bebesse iria voltar de taxi. Ou então quem sabe, tomar só suco, ou refrigerante. Mesmo assim, pelo visto garantiria o seu retorno pra casa sem problemas.
Tem coisa que não dá pra prever, nem quantas cervejas você vai tomar, nem se a polícia vai parar, e muito menos que não vai ter bafômetro pra todo mundo.

.