Aquele amor não existia na vida real, era fantasia. Os corpos não podiam se encontrar por menos de três horas. Sentiam uma terrível falta um do outro quando se iam. Os toques, os beijos e os cheiros iam tomando proporções maiores que seus desejos. Quando estavam juntos, no apartamento ou em qualquer lugar que seja, eles não pensavam. As mãos que tocavam seu corpo eram as mesmas que moldavam a argila mole e úmida que se transformara num cálice pela manhã. Estava confirmada a possessão. Não havia nada de leve no clima. O ambiente era carregado, porém envolvente. Eles não pensavam. Entendiam que o amor era algo simples, que apenas fazia parte do dia, como o nascer do sol que não tem surpresas nem motivos. Apenas está lá. Então, num desses capítulos especiais da vida, em que tudo acontece, eles sentiram necessidade da distância. Da solidão entre si. E submeteram-se a um período de separação. Foram infindáveis duas horas sem se falar, mas ao primeiro toque do celular, as lamentações deram lugar ao coito. Como resistir? A pele suada exalava paixão e o sangue escorrendo dos ouvidos diagnosticava o derrame. Foi penosa a separação. Ele não resistiu. Ela, na lembrança dos momentos que viveram, mostrara-se feliz e tivera tempo de sorrir antes de apertar o gatilho.
..............................................................................................................................................................................................................far niente!!!
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10/07/2010
12/04/2010
O CIRCO
No último espetáculo do ano quem pinta o rosto pro trabalho fez a melhor piada. Quis que o trapezista resolvesse uma equação aritmética de ponta cabeça enquanto fazia suas acrobacias lá nas barras suspensas. O resultado deveria ser o número de vezes que o contorcionista desapareceria do picadeiro. Obra do mágico que tinha feito uma aposta com a mulher barbada - quem perdesse iria entrar na jaula dos leões. O auto-retrato havia sido pintado pelo olhar triste do público respeitável; aflição e ansiedade. A probabilidade de acerto da solução do exercício matemático entretanto era mínina, porém maior que a credulidade ante ao efeito da sopa de lentilha da véspera e a camiseta branca. Ninguém percebeu, mas o lenço que o mágico usou era branco. Sorte ou não, alguém já viu mágico usar lenço branco? Só pombo e coelho. Lenço, sempre vermelho. E velho.
18/09/2008
Cores Frias
Quando percebi, já estava com o globo ocular direito nas mãos, e pedindo pra ser liberada logo porque tinha prova de anatomia na primeira aula. A enfermeira me explicou que aquele punhal, arremessado por alguém do lado de fora do trem, estava enferrujado e eu teria que ficar em observação. Era alto o risco de tétano. Permaneci ali por mais um tempinho sentada na maca até que um rapaz entrou na sala dizendo ser o operador de raios-X, e que precisava providenciar algumas radiografias dos seios da minha face. Conheço bem o procedimento. Pediu que eu deitasse encostando o rosto naquela maca gelada, e tirou a primeira chapa. Depois pediu pra virar de lado, agora sem a atadura que protegia o buraco sangrento do meu rosto. “Senão queima”, disse ele. Fiquei lisonjeada quando olhando para minha ficha, ele murmurou sentir-se atraído por mulheres com olhos de cores diferentes. Os meus, um era verde, o outro azul, da mesma cor do cabo do punhal que o perfurou.
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