13/01/2012

Por enquanto, encontrando a melhor forma pra voltar ao ócio, agora com outros fundamentos...

21/07/2010

AS HISTÓRIAS DO AMADEU - CUTÍCULA

Na manicure, a Marilda se lamenta porque não pode acompanhar o marido que foi fazer um exame de sangue. Logo ela que se achava tão companheira, tão próxima do parceiro, e tão disponível, desconfiou que o Amadeu não queria que ela fosse com ele.
- Neuza, o Amadeu anda meio estranho ultimamente, meio afastado, sabe. Tô sentindo ele meio distante. Não quer mais minha companhia pra nada. Cê acredita que outro dia ele foi sozinho no cinema?
- Nossa. Faz tanto tempo que não faço isso.
- O que? Ir no cinema?
- Não. Ir no cinema sozinha. Eu adoro!
- Que é isso Neuza? Você também? Pensei que era só aquele relapso do meu marido.
- Que nada. Ir no cinema sozinha é ótimo. Eu sempre fui. Mesmo depois de casada. O Paulo nem liga. Também, não gosta de cinema.
- Meu Deus! Como uma pessoa pode ir no cinema sozinha? Sem companhia, sem ninguém, sem passear de mãos dadas.
- Ah, Marilda. Eu vou no cinema é pra assistir o filme e não pra outras coisas. Namorar a gente namora em casa.
- E o romantismo mulher? Onde fica?
- Ah, minha filha! Não preciso ir no cinema pra ser romântica, não. Eu e o Paulo, a gente se completa em todos os sentidos, inclusive nos momentos em que estamos sozinhos, estamos um com o outro entende?
- Nossa Neuza, que palavras bonitas! Tô até com inveja.
- A gente tem uma sintonia muito forte sabe? A gente respeita o lado individual de cada um. Um dia, durante uma discussão quando a gente ainda namorava, ele virou pra mim e disse: “Neuza, eu tenho minha vida, você tem a sua e a gente tem a nossa. Se eu tiver uma vida feliz e você também, a nossa com certeza será”. Depois desse dia eu tive certeza que amava o Paulo.
A Marilda ficou emocionada com as palavras da manicure, e deixou escorrer uma lágrima. Ao tentar não enxugá-la, puxou a mão direita justo no momento que a Neuza apertava-lhe o alicate junto à cutícula do dedo médio. Ao ver o sangue no canto da unha, começou a passar mal e lembrou que o marido não estava ali ao seu lado. Entendeu que sua história era totalmente diferente da história da manicure. O seu casamento realmente estava acabando.

10/07/2010

BEM VINDO PUNHAL

Aquele amor não existia na vida real, era fantasia. Os corpos não podiam se encontrar por menos de três horas. Sentiam uma terrível falta um do outro quando se iam. Os toques, os beijos e os cheiros iam tomando proporções maiores que seus desejos. Quando estavam juntos, no apartamento ou em qualquer lugar que seja, eles não pensavam. As mãos que tocavam seu corpo eram as mesmas que moldavam a argila mole e úmida que se transformara num cálice pela manhã. Estava confirmada a possessão. Não havia nada de leve no clima. O ambiente era carregado, porém envolvente. Eles não pensavam. Entendiam que o amor era algo simples, que apenas fazia parte do dia, como o nascer do sol que não tem surpresas nem motivos. Apenas está lá. Então, num desses capítulos especiais da vida, em que tudo acontece, eles sentiram necessidade da distância. Da solidão entre si. E submeteram-se a um período de separação. Foram infindáveis duas horas sem se falar, mas ao primeiro toque do celular, as lamentações deram lugar ao coito. Como resistir? A pele suada exalava paixão e o sangue escorrendo dos ouvidos diagnosticava o derrame. Foi penosa a separação. Ele não resistiu. Ela, na lembrança dos momentos que viveram, mostrara-se feliz e tivera tempo de sorrir antes de apertar o gatilho.

18/05/2010

NÓ DE GRAVATA


Saímos cedo, por volta das 18h00. O horário de verão ajudava no percurso, porque dirigir à noite não era legal, nunca gostei. Ela vestia uma saia verde com listras brancas e uma blusa branca, gola careca. O salto discreto era baixo, e quem olhava de longe tinha a impressão de estar vendo uma mulher de estatura médio-alta. Colar e brincos de prata (eu acho) ornamentavam a silhueta em contraste à maquiagem retocada na saída do trabalho. Na mala, todos os acessórios e badulaques que as mulheres levam a qualquer lugar, qualquer viagem, além de outras duas malas e uma bolsa mais pesada que chumbo, e que não deu pra ver direito o que tinha dentro porque eu não tive paciência de ajudar a preparar na noite anterior.

Na minha bagagem, duas cuecas, duas bermudas, uma sunga, xampu, fio dental, pasta e escova de dente devidamente enrolados numa das três camisetas de lycra, daquelas que não amassam e conseqüentemente não precisam passar pela incandescente sensação de ser prensada por um ferro de passar. Tudo muito bem acomodado numa bolsa pequena que eu uso pra ir pro futebol. Não preciso de mais nada para passar um final de semana em Ubatuda. Quem olha de fora do carro só imagina que vou numa festa por conta do terno e gravata que estão num cabide pendurado por detrás do meu banco. Mas é isso mesmo, só não consigo entender como o Dorival, morando na praia resolve casar com as formalidades de como se estivesse em São Paulo. “Coisa da minha sogra”, defende ele que conheceu a noiva a não mais que três anos e já está casando.

A intenção é parar em São Luis do Paraitinga para dormir e seguir viagem no sábado pela manhã. Tomamos um café na pousada e tocamos. O casamento é as 12h00. Imagina só o calor insuportável que deve estar naquela igreja. Não consigo me ver defronte ao padre por mais de trinta segundos mantendo a pose e garantindo ao Dorival que estou muito feliz pelo casamento dele e por ele ter me convidado pra ser padrinho. Padrinho de um casal que vive numa cidade do litoral e que resolve casar na igreja, ao meio dia de um sábado de verão. Porque que não casam à beira-mar, roupas leves, brancas e despojadas, descalços ao som de Janis Joplin?

Pensando no casório enquanto olho pro meu terno alugado, vejo que ele é até muito bem alinhado e que as riscas de giz são discretas. A camisa branca tem os punhos e o colarinho bem cuidados e a gravata vinho também era muito bonita, mas não estava com o nó feito. E agora? Vou ter que me virar pra dar um nó nesse troço!

Quero saber quem foi o cara que inventou o nó de gravata. E mais, como ele descobriu que ela só funcionaria com um nó? Ainda mais um nó tão difícil de dar. Com certeza o cara que inventou a gravata não morava na praia, se morasse, teria inventado uma bermuda com a barra desfiada, bolso rasgado e com um cinto sem fivela, apenas uma tira amarrada num nó de marinheiro.