22/01/2012

As Histórias do Amadeu - Onde tudo começou


Amadeu é um cara simples. Aposentado, acorda diariamente as 06:30 para sua caminhada diária. Vez por outra ele caminha acompanhado do Carlos, que tem duas pontes de safena e não suporta exercícios físico. Caminha por que é obrigado: “Odeio suar!”, diria ele. Depois de caminhar, os dois sempre vão à praça pra jogar um dominózinho amigo. O local é freqüentado por vários senhores aposentados, desempregados e afins, mas isso não incomoda o Amadeu, muito pelo contrário, o faz esquecer das chatices da Marilda, sua esposa.

        Amadeu dia desses tava lá na praça jogando, e a Marilda foi lá falar com ele.

-      Ei! Eu tô indo no mercado, você vem comigo?

-      Vai indo que eu tô terminando aqui. Já eu te encontro lá.

-      Nana, nana! Da última vez que você disse isso, tive que pagar vinte reais de taxi pra voltar! Vou esperar você aqui!

Risos na praça foram óbvios. Mesmo assim, Amadeu continuou jogando e só depois de terminar é que ele seguiu com a Marilda puxando o carrinho de feira.

-      Você viu o preço do achocolatado? Tá pela hora da morte?

-      Marilda, já estamos aqui à quarenta minutos e você não terminou suas compras. Vai levar o mercado todo, ou o quê?

-      Nossa Amadeu, você tá cada dia mais chato. Típico comportamento de gente que não faz nada da vida. Já tô quase terminando, peraí.

Era assim todas as vezes em que o Amadeu não conseguia de safar da Marilda. Na relação, a Marilda era a comandante, e ele sempre tinha suas lamentações. Apesar de aposentado, o Amadeu era novo, tinha só 54 anos. Começou a trabalhar cedo, seu sua atividade profissional era insalubre. Trabalhou a vida inteira num laboratório de produtos químicos, por isso que ele tinha que caminhar. Recomendações médicas. A Marilda ele conheceu na firma. Ela trabalhava no “DP”. Com o tempo, foram se acostumando com a relação. Hoje, acostumados, o Amadeu vai fingindo que gosta da Marilda, e ela finge que acredita.

        Três horas depois de ter ido ao mercado, volta o Amadeu pra praça.

-      Como tá o jogo aí?

-      Olha o cara aí! Consegui trazer tudo, ou teve que dar duas viagens? – disse o Carlos.

-      É a Marilda. Num guento mais aquela mulher. Fica dando voltas e voltas. Passa um monte de vezes no mesmo corredor e não leva nada!

Cinco minutos de papo são suficientes para a Marilda aparecer de novo.

-      Amadeu, preciso ir no açougue. A Valéria me disse que tem uma promoção ótima. Diz que o preço do lagarto tá muito bom. Tô pensando em fazer aquele assado com batatas.

Vocês precisavam ver a cara de espanto de todos, principalmente a do Amadeu. Ele não esperava que a Marilda falasse aquilo na frente de todo mundo, ainda mais, cinco minutos depois de ter chegado do mercado.

-      Então tá!  Vá lá e traga uma peça bem bonita.

-      Nana, nana. Você vai comigo escolher. Aliás meu cartão do banco tá bloqueado e preciso que você vá no caixa eletrônico tirar dinheiro.

-      Pega meu cartão e vai. Você sabe a senha.

-      Você sabe que não gosto disso.

-      Mas eu tô jogando! Quer dizer, eu vou jogar!

-      Joga depois! Você vai jogar o dia todo mesmo. Não sai dessa praça! Vâmo lá vai!

Amadeu sabia que ela queria tirá-lo da jogatina, e estava usando uma desculpa atrás da outra pra conseguir o que queria. “Ela que vá pensando que me domina.” – disse pra si mesmo.

-      Você vai preparar pro almoço ou pra janta?

-      Pra janta. A Flavinha vai lá em casa com o namorado.

-      E quanto você vai gastar?

-      Sei lá, uns trinta reais.

-      Então vai lá na minha carteira e pega cinqüenta logo.

-      Mas você tem que me ajudar a trazer as outras coisas, o refrigerante...

-      Pode deixar que quando eu sair daqui eu levo os refrigerantes.

Ela emudeceu, afinal, não tinha mais desculpas pra tirar o Amadeu dali.

-      Tá bom! Vê se não demora. – e saiu andando.

Mais uma vez o Amadeu conseguiu escapar. Mas não era sempre assim, ele nem sempre ganhava. Era apenas mais uma batalha, e ele tinha certeza que vinha mais por aí.

13/01/2012

Retorno às postagens. Constantemente em busca do ócio...


          No retorno às postagens, vai um dos primeiros contos que escrevi e de que mais gosto. 





         NUNCA MAIS FELIZ


         Regina foi abordada na saída da boate,  às sete da manhã. As olheiras acusavam que a noite foi intensa, e o prazer também. Trabalhar era sua vida, mas o sonho ainda ia se tornar realidade. Adorava viver seu personagem, e o prazer, este era da representação.
         Ele perguntou onde ficava a Caio Prado, e ela disse: - Logo ali. Primeira esquerda, no farol.
         Ela desapareceu subindo no ônibus, sem perceber que ele a fitara até o fim de seus passos curtos, e só então dobrou a esquerda.

         No primeiro drink estava o desejo de revê-la e sugar-lhe até revelar-se. Ela aparece.
-       Acho que já te vi hoje né?
-       É. Eu também. Dormiu bem?
-       Dormi. A tarde toda. E você? Achou a Caio Prado?
-       Achei. Não sou daqui. Moro no interior, e vim procurar uma coisa, mas acabei achando outra.
-       Preciso ir. Meu show é agora.
Regina estava acostumada com os olhares masculinos, mas nunca ninguém botara tanto reparo nela como aquele cara. Algo que nunca tinha vivido. E chamou sua atenção. Seria coisa do interior? Subiu no palco para sua apresentação, e sabia que seria difícil tiara os olhos dele. A cada movimento, cada passo de sua dança sensual, ela insinuava que havia percebido a intenção real do tal cara da roça.

-          Betinho! Manda um cheeseburger, que to virada de fome!
Enquanto matava quem tava lhe matando, Regina percebe que ele não tirava o olho. Sentiu-se numa sessão paparazzi.
Depois do lanche, saiu e foi ao camarim. Quando voltou, ele a esperava no corredor, e agarrou-a sem uma palavra sequer. Um beijo que só os dois souberam a intensidade.
-       Betinho! Um Martini aqui pra moça! – E voltando-se a ela – Você parecia um anjo com aquele vestido azul.
-       Minha saia era marrom! E a blusa era bege! – Disse ela, desanimada. Ele não havia prestado tanta atenção assim.
-       O de hoje de manhã era azul. Com três botões atrás. E naquele saltinho, ficou perfeita. Se bem que, por si só, não há a necessidade de adornos.
O olhar de Regina entregou. Ela adorou o comentário.

         Desde então, toda noite de show da Regina, ele ia até a boate. Já havia se mudado definitivamente para a capital, e íntimo de Betinho, pedia pra entregar bilhetes com poemas e mandava decorar com flores o camarim de Regina. Ela não conseguia esconder a satisfação de ser cortejada como se tivesse passando de mini-saia em frente a um campo de futebol de várzea, ou num canteiro de obras.
Naquela noite, ele abandonou o Martini e foi de uísque caubói:
-       Te quero hoje! Você não sai daqui a não ser que seja comigo! Teu corpo é meu!
Apesar do frio, Regina corou a face e não conseguiu dizer não. Aquela noite aconteceu seu último show. Estava de partida pra uma outra turnê.

Engraçado como o amor de esposa e diferente de amor de amante. Ele agora só amava Regina como esposa...
Agora era cuidar da casa,  dos filhos... A vida lá fora acabou e o sonho se perdeu. A Caio Prado Ficou longe
De noite, ao esperá-lo em casa, Regina sentada na frente do espelho lembra das noites, dos preparativos para o show, maquiagem. Lembrava dos olhares masculinos, como a tirar-lhe fotografias. Mais pra raio X de tão profundas. Das cantadas mil e dos bilhetes que Betinho entregava – Vinícius,  a Vinícius de Moraes, quanta saudade. Saudades das flores no camarim. Do Martini que a conduziu ao amor verdadeiro. Que pena.
A estrela passou a brilhar num único e diferente céu, e seu resplendor foi abafado.
Romance com Martini, flores no camarim e Caio Prado nunca mais.
Por enquanto, encontrando a melhor forma pra voltar ao ócio, agora com outros fundamentos...

21/07/2010

AS HISTÓRIAS DO AMADEU - CUTÍCULA

Na manicure, a Marilda se lamenta porque não pode acompanhar o marido que foi fazer um exame de sangue. Logo ela que se achava tão companheira, tão próxima do parceiro, e tão disponível, desconfiou que o Amadeu não queria que ela fosse com ele.
- Neuza, o Amadeu anda meio estranho ultimamente, meio afastado, sabe. Tô sentindo ele meio distante. Não quer mais minha companhia pra nada. Cê acredita que outro dia ele foi sozinho no cinema?
- Nossa. Faz tanto tempo que não faço isso.
- O que? Ir no cinema?
- Não. Ir no cinema sozinha. Eu adoro!
- Que é isso Neuza? Você também? Pensei que era só aquele relapso do meu marido.
- Que nada. Ir no cinema sozinha é ótimo. Eu sempre fui. Mesmo depois de casada. O Paulo nem liga. Também, não gosta de cinema.
- Meu Deus! Como uma pessoa pode ir no cinema sozinha? Sem companhia, sem ninguém, sem passear de mãos dadas.
- Ah, Marilda. Eu vou no cinema é pra assistir o filme e não pra outras coisas. Namorar a gente namora em casa.
- E o romantismo mulher? Onde fica?
- Ah, minha filha! Não preciso ir no cinema pra ser romântica, não. Eu e o Paulo, a gente se completa em todos os sentidos, inclusive nos momentos em que estamos sozinhos, estamos um com o outro entende?
- Nossa Neuza, que palavras bonitas! Tô até com inveja.
- A gente tem uma sintonia muito forte sabe? A gente respeita o lado individual de cada um. Um dia, durante uma discussão quando a gente ainda namorava, ele virou pra mim e disse: “Neuza, eu tenho minha vida, você tem a sua e a gente tem a nossa. Se eu tiver uma vida feliz e você também, a nossa com certeza será”. Depois desse dia eu tive certeza que amava o Paulo.
A Marilda ficou emocionada com as palavras da manicure, e deixou escorrer uma lágrima. Ao tentar não enxugá-la, puxou a mão direita justo no momento que a Neuza apertava-lhe o alicate junto à cutícula do dedo médio. Ao ver o sangue no canto da unha, começou a passar mal e lembrou que o marido não estava ali ao seu lado. Entendeu que sua história era totalmente diferente da história da manicure. O seu casamento realmente estava acabando.

10/07/2010

BEM VINDO PUNHAL

Aquele amor não existia na vida real, era fantasia. Os corpos não podiam se encontrar por menos de três horas. Sentiam uma terrível falta um do outro quando se iam. Os toques, os beijos e os cheiros iam tomando proporções maiores que seus desejos. Quando estavam juntos, no apartamento ou em qualquer lugar que seja, eles não pensavam. As mãos que tocavam seu corpo eram as mesmas que moldavam a argila mole e úmida que se transformara num cálice pela manhã. Estava confirmada a possessão. Não havia nada de leve no clima. O ambiente era carregado, porém envolvente. Eles não pensavam. Entendiam que o amor era algo simples, que apenas fazia parte do dia, como o nascer do sol que não tem surpresas nem motivos. Apenas está lá. Então, num desses capítulos especiais da vida, em que tudo acontece, eles sentiram necessidade da distância. Da solidão entre si. E submeteram-se a um período de separação. Foram infindáveis duas horas sem se falar, mas ao primeiro toque do celular, as lamentações deram lugar ao coito. Como resistir? A pele suada exalava paixão e o sangue escorrendo dos ouvidos diagnosticava o derrame. Foi penosa a separação. Ele não resistiu. Ela, na lembrança dos momentos que viveram, mostrara-se feliz e tivera tempo de sorrir antes de apertar o gatilho.