09/02/2010

CORTAR E GRUDAR

Alguém disse que ela não viria mais. Havia desistido. Mesmo porque, depois das duas primeiras aulas, acho qualquer um na sua mais plena consciência perceberia que aquele curso...

Eu mesmo tinha comigo que ela sempre foi meio relapsa sim. Várias vezes ao nos encontrarmos eu percebi uma certa arrogância vindo dela. Sabe quando a pessoa chega no mesmo lugar que você está, te olha fundo nos olhos e quando você ameaça balançar a cabeça pra cumprimentar, ela vira a cara? Então.

Uma outra disse que “copiar e colar” é a mesma coisa que "cortar e grudar”. “É tudo a mesma coisa. Você aperta o dedo aqui desse lado do ratinho e leva a setinha pra onde você quer”.

Na hora do intervalo, ser tolerante em tomar café ao lado de alguns é uma vitória. Não dá pra bater papo sabe? Qualquer assunto fica chato e a noite demora a passar. Muitas tartarugas fugindo, e um leão morto a cada aula.

Hoje cheguei atrasado. Abri a porta e todo mundo torceu o pescoço pra ver quem era. Juro que não cheguei tão atrasado assim, tanto que depois que eu entrei, vi uns dois ou três saindo, por que quarta tem futebol depois da novela.

Logo em seguida, ela levantou, veio falar alguma coisa no ouvido de outra garota que estava sentada do meu lado. Passou por mim com a mesma arrogância de sempre. Nunca haviam se falado, mas foram tantos sorrisos gastos naqueles dois minutos de prosa, que parecia que uma era a mais recente amiga de infância da outra. Uma aula de Educação Moral e Cívica, ou OSPB, seria mais interessante.

Agora preciso parar. A mulher que fala sozinha chegou.

25/01/2010

09/01/2010

Cara nova! Tá melhorando o aspecto do blog - pelo menos eu acho que ficou mais leve, mais limpo. Mais a ver com a proposta. Sim, porque a informação seja lá de qual for a mídia, deve dar prazer. E prazer foi o que encontrei lendo uma matéria no site da revista Vida Simples, sobre morar em comunidade. A reportagem é sobre uma vila de casas em São Paulo, onde o segredo é viver em comunhão com os moradores próximos. Veja mais em: Vida Simples.



08/01/2010

CORES, ALEGRIA E SUOR... MUITO SUOR!


Depois de um tempo fora do mundo virtual, retomo o contato com o mundo através da rede, mas sem a noção de que altura me encontro. Cair na rede é algo inevitável, e o trapézio de nossas vidas é altamente (sem trocadilho) instável. Cá estou de volta, ora com a cara pintada - escondendo mina ira -, ora com a cara limpa e preso junto aos leões; e por vezes muitas, com vontade de me entregar ao ócio eterno, cambaleando "far niente" na corda-bamba.

07/09/2009

OMBRO PERTO DO QUEIXO


Quando abri os olhos vi as copas das árvores. Eu não conseguia me mexer direito. Aquela sensação voltou e eu ficava sem entender nada quando acontecia, só depois. O gosto amargo na boca prevalecia sempre, e eu conseguia fazer um único movimento lateral com o braço direito, como se estivesse limpando a boca com o lado externo do punho, mas com o braço mais esticado e duro, e o ombro perto do queixo. O Vanderley deu um pulo que quase deu com o pé direito na minha cara torta, mas eu ali, nem me mexia. Minha boca beijava o vento e meus olhos fixos no nada. “Dona Mocinha! O Rogério tá dando ataque de novo”, eram as únicas palavras que eu conseguia ouvir ao longe, por uma voz conhecida, mas não conseguia identificar quem que estava ali gritando. E quem era Dona Mocinha? Sei que sempre que eu fazia aquele movimento com o braço, ouvia alguém chamando por ela: “Dona Mocinha! O Rogério...”.

Aquela cena apesar de estranha era familiar. Quando a vista ficava turva eu tinha certeza que alguma coisa errada estava acontecendo, só não sabia dizer o que era. Apenas depois. E sempre acontecia quando eu sentia a falta do sabor adocicado do brometo de potássio.

Eu era epiléptico e tinhas uns ataques, uns surtos repentinos, acontecia quando menos esperava. A família toda sabia e quando aquele movimento involuntário estava pra acontecer, quando o punho e o cotovelo começavam a formigar, eu tinha vontade de sair correndo sem rumo. Até tentava avisar a quem estivesse ao meu lado, mas era em vão. Não dava tempo. Durante aqueles intermináveis dois minutos, minha boca ficava feito losna. Mas eu tinha sempre a certeza de que tomava apenas chá de losna para as minhas diarréias e dores de estômago. Nunca abusei do chá. Minha mãe, sempre ia buscar umas folhas no fundo do quintal... Lembrei! Dona Mocinha era minha mãe! Então sempre que acontecia era a ela que chamavam. Lembro que a gente morava numa casa ampla. A sala e os quartos ficavam na parte da frente, enquanto os banheiros e a cozinha ficavam nos fundos. Da janela que tinha na pia da cozinha, minha mãe ficava espiando a gente brincar no quintal. Éramos sete irmãos, eu a Olívia, o Marcelo, o Tonho, a Jocelma, a Dalva que era a mais velha e o Danilo, que todo mundo chamava de Toró. Ele era o irmão mais novo e era diferente da gente. Tinha o cabelo mais claro, mais liso e os olhos levemente puxados, lembrando um pouco os traços de uma criança oriental. Um dia o Toró ficou caçoando do Flavinho, irmão do Cido, porque ele tinha botado uma lombriga pra fora no meio da rua enquanto empinava pipa. De repente o Toró viu aquele troço pendurado entre as pernas do colega e ficou rindo da situação. Tomou uma pedrada na cabeça que lhe renderam seis pontos.

Nesses dois minutos sem fim, consegui lembrar de todos os amigos que brincavam comigo e meus irmãos no nosso quintal. A gente ficava pulando de galho em galho, de árvore em árvore, e minha mãe lá na janelinha espiando. Lembro que a gente gostava de comer "uva japonesa". Tinha dois pés da árvore lá em casa e eram os mais altos. Deve ser de um deles que eu cai.